Cume – Escalando Montanhas

12/11/2009

O natal

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O Natal dos Deuses Cristãos – As primeiras manifestações de religiosidade do Homem relacionavam-se com o culto das forças da natureza e, mais ainda do que de uma explicação divina para uma «vida depois da morte», elas nasceram do temor e da falta de compreensão para os fenômenos naturais, desde o vento à chuva ou aos relâmpagos, até à própria periodicidade dos ciclos solar ou lunar. É por isso absolutamente normal que o Homem, animista nas suas origens religiosas, fosse também natural – e quase geneticamente – politeísta. O desenvolvimento e a evolução do Homem vieram ao longo de milhares de anos trazer uma maior complexidade aos seus cultos religiosos, sempre com uma natureza politeísta.  No entanto, nalgumas civilizações da antiguidade ainda assistimos a tentativas mais ou menos sucedidas de unificação de divindades, embora normalmente protagonizadas por sacerdotes ou por governantes mais interessados na unificação e no poder temporal que daí poderia resultar. O crescente desenvolvimento do cristianismo encontrou no Império Romano uma população de uma profunda religiosidade e, também por isso, uma riquíssima mitologia, com deuses para todos os gostos, feitios e ocasiões. De tal modo, que em determinada altura o próprio Imperador Constantino (também influenciado pela sua própria mulher, Santa Helena, entretanto convertida) acabou por achar melhor adoptar o sábio princípio: «se não os podes vencer, junta-te a eles».
Sem nunca se ter convertido, Constantino acabou por tolerar o cristianismo e, juntamente com Licínio, o tetrarca Oriental (a quem escassos onze anos mais tarde mandou matar, assim tomando o controle de todo o Império Romano) assinou em 313 o Édito de Milão, que proclamava a independência do Império em relação a quaisquer credos religiosos, fazendo devolver aos cristãos as propriedades e os lugares de culto confiscados.
 
Jota


A partir de então, em todo o Império Romano o cristianismo convive pacificamente com a religião tradicional pagã (no sentido de religião politeísta ou não cristã, embora a designação se aplique também às religiões distintas da judaica, que também beneficiou desta tolerância e convivência pacífica inter-religiosa).

Mas muito havia para esclarecer, explicar e estabelecer nessa nova religião que era o cristianismo.
Até que no ano 325 Constantino convoca o Concílio de Niceia.
Com a presença de mais de 300 bispos (nomeados por líderes religiosos locais e pelo próprio Constantino), o primeiro concílio ecuménico ? que marca o início da Igreja Católica ? visava antes de mais condenar o «Arianismo», uma heresia que nega a divindade de Jesus Cristo.

O «mistério» da Santíssima Trindade encontra nesta concílio as bases da sua fundamentação, com a aprovação pela maioria dos bispos presentes (e não pela sua unanimidade, tendo ficado célebres as perseguições de Constantino aos bispos discordantes) da ideia de que Jesus é da mesma ?substância? e da mesma ?essência?, isto é, a mesma entidade existente do Pai.
Ou seja, haveria somente um Deus e não dois: a distinção entre o Pai e o Filho está dentro da «unidade divina». O Filho é Deus no mesmo sentido em que o Pai o é.
O próprio «Credo» de Constantino, saído do Concílio de Niceia, reconhece a divindade de Jesus Cristo, dizendo que o Filho e o Pai são ?de uma única substância? e que o Filho é «gerado», (único gerado, ou unigénito), mas não no sentido de «feito».

Desesperado para encontrar uma nova religião de massas através da qual pudesse controlar o povo, é no concílio de Niceia que Constantino molda o cristianismo a seu bel-prazer e ora faz inscrever ora faz abolir da Bíblia os textos e os evangelhos que acha mais apropriados, re-escrevendo-os e adaptando-os às suas políticas e aos seus interesses e depurando-os de contradições entre si.

Foi no Concílio de Niceia que foi decidido quais os evangelhos que tinham sido inspirados pelo Espírito Santo e que, por isso, eram os únicos dignos de figurar na Bíblia, os «evangelhos canónicos», por oposição aos evangelhos indignos dessa honra, conhecidos por «evangelhos apócrifos» ou «gnósticos».
Várias são as versões que contam como se deu a separação entre os evangelhos canónicos e apócrifos:
Há quem diga que, durante o Concílio, estando os bispos em oração, os evangelhos inspirados foram depositar-se no altar por si só.
Uma outra versão relata que todos os evangelhos foram colocados por sobre o altar, e os apócrifos caíram ao chão…
Outra ainda afirma que o Espírito Santo entrou no recinto do Concílio em forma de pomba e foi pousando no ombro direito de cada bispo, segredando aos seus ouvidos os evangelhos inspirados.

Depois, e na melhor tradição do costume babilónico da deificação do rei ou do imperador, foi com uma habilidade notável que Constantino aproveitou as festas, os costumes e os princípios pagãos e judaicos, já conhecidos e tradicionais no Império, para os adaptar e criar a doutrina desta nova religião, em progressivo crescimento e implantação popular.
Exemplo paradigmático disso é a festa pagã do Solstício de Inverno, adaptada ao Natal e às comemorações do nascimento de Jesus Cristo.

Esta nova Igreja, a Igreja Católica fundada no Concílio de Niceia («Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica…») está, pois, bem longe de ser a «Igreja Primitiva dos Apóstolos» e, obviamente, não foi fundada por Pedro.
Poderá até dizer-se que o seu primeiro Papa foi Constantino.

Quando morreu, em 337, Constantino foi baptizado e enterrado como um verdadeiro décimo terceiro Apóstolo, e na iconografia eclesiástica, veio a ser representado recebendo a coroa das mão de Deus.

 
trindade


Mais tarde, já com Teodósio, o cristianismo haveria de tornar-se a religião oficial do Império, institucionalizando-se profundamente na sociedade romana e constituindo um polo de união comum a todos os territórios conquistados, surgindo o profissionalismo religioso e toda uma estrutura teológica e uma casta sacerdotal dominante, que se impunha aos fiéis proclamando de forma rígida e autoritária que «fora da Igreja não há salvação».

deus de


Quase dezassete séculos depois do Concílio de Niceia comemora-se uma vez mais o Solstício de Inverno, transformado habilmente por Constantino nas comemorações do nascimento do Deus dos cristãos.

O Concílio de Niceia foi de tal modo primordial para o cristianismo ? e para a religião católica em particular ? que ainda hoje os seus fundamentos e princípios doutrinais e filosóficos são precisamente os mesmos que foram inventados por Constantino.

Até é precisamente o mesmo o raciocínio e o hábil jogo de palavras que faz passar o cristianismo por… uma religião monoteísta.

De facto, é através de um mero jogo de palavras a que chama um «Mistério», isto é, um dogma que não tem explicação possível, que esta religião persiste em fazer-se passar como «uma das três grandes religiões monoteístas do mundo».

Mas que de monoteísta nada tem!

Só deuses tem três: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Podem os mais fiéis defensores do «Mistério da Santíssima Trindade» dizer que estes três deuses são, afinal, um só.
Mas o que é facto é que eu conto três: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Quanto ao Deus «Espírito Santo», que à boa maneira cristã é de formulação masculina, sempre se diga ainda que, com a sua atitude típica e persistentemente misógina, os católicos perderam a oportunidade de tornar a sua origem e a sua explicação bem mais interessante.
Poderiam, por exemplo, ter dado mais atenção ao apóstolo Filipe que nos transmitiu no seu evangelho gnóstico, excluído por Constantino da honra de figurar na Bíblia entre os evangelhos canónicos:

«Alguns dizem que Maria concebeu do Espírito Santo.
«Erram, não sabem o que dizem.
«Quando é que uma mulher concebeu de uma mulher?»

A explicação para este aparente contra-senso é bem simples:
É que em grego, língua original em que foram escritos os evangelhos e até em copta, o idioma para que foram em primeiro lugar traduzidos antes de transpostos para os idiomas actuais, «Espírito Santo»… é do género feminino!
E assim, com uma simples mudança do género de uma palavra numa tradução, a Igreja Católica perdeu a oportunidade de respeitar a «Santíssima Trindade» na formulação original de «Sagrada Família», isto é, de Pai, Mãe e Filho.

Depois, a estes três deuses acresce a mãe do Deus Filho.
De tal modo deificada que, tal como Jesus Cristo, e apesar falta de sustentação bíblica para tal, foi feita subir ao Céu em corpo e alma após a sua morte terrena.
E já vão quatro!

De tal forma que, assumindo várias personalidades consoante as regiões geográficas, e multiplicando-se como que para afirmar o politeísmo cristão, a Nossa Senhora de Fátima, ou de Lourdes, ou a Virgem Negra polaca, ou a Virgem de Guadalupe sul-americana, concorrem mesmo com os três principais deuses na devoção dos cristãos.
Diz-se mesmo que o Papa João Paulo II, conhecido como «devoto mariano», mais que aos seus próprios patrões rezava à mãe do Deus Filho.

Depois, aparecem os santos. Que se contam aos milhares!
E que são tão deuses como os outros deuses, pois com eles concorrem na adoração dos fiéis cristãos e como eles são omnipotentes e omnipresentes.

E não é essa a definição de «Deus»?

De tal modo, que em todos os cristãos existe um «santo de devoção», frequentemente corporizado numa imagem ou num ícone, a quem se pede um favor, uma graça, ou «uma cunha» para um emprego, para a cura de uma doença ou para um prémio no Euromilhões.

Foi também com um hábil jogo de palavras que o Segundo Concílio de Niceia (o sétimo Concílio Ecuménico), realizado no ano de 787, distinguiu o que é «adoração» do que é «veneração».
E estipulou que pedinchar uma coisa a um Deus, se chama «adorar»; e que pedinchar a mesma coisa a um santo se chama «venerar».
Embora os resultados previsíveis da pedinchice sejam basicamente os mesmos.

Não admira, pois, que os cristãos, com um folclore, uma mitologia e uma iconoclastia tão rica, sejam tão preocupados e cuidadosos a celebrar o Natal.

E se é assim, então, a todos um bom Natal! (Artigo de Luis Grave Rodrigues)

Gilberto Gil

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Drão

Drão – Gilberto Gil

Drão, o amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar

*

Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão nossa semeadura
Quem poderá fazer, aquele amor morrer
Nossa caminha dura
Dura caminhada, pela estrada escura

*

Drão, não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão

*

Entende-se infinito, imenso monolito
Nossa arquitectura
Quem poderá fazer, aquele amor morrer
Nossa caminha dura, cama de tatami
Pela vida afora

*

Drão, os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar

*

Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer, aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre nasce trigo
Vive morre pão
Drão, Drão.

Ouça aqui:
Drão – Gilberto Gil

1.(Esta música é do gilberto gil sobre a sua mulher que se chamava Sandra (sanDRÃO). Foi escrita por altura do seu divórcio).

*

2.(…a homenagem mais bonita que um poeta já fez a sua musa é Drão (“o amor da gente é como um grão/ tem que morrer pra germinar”), de Gilberto Gil, para a então mulher Sandra (Sandrão, Drão), que muito tempo atrás já tinha inspirado outra, Sandra.

*

Drão só empata com outra do próprio Gil, Flora (“imagino-te já idosa/ frondosa, toda folhagem”… “imagino-te futura/ ainda mais linda madura), que ele fez para sua mulher atual…).

É hora de dizer

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É hora de dizer não a Chávez

Sinceramente estou embevecido com a respeitabilidade que o Brasil tem granjeado no exterior.

Fico orgulhoso quando o presidente Lula recebe um prêmio da qualidade do Chatham House – concedido somente a dignitários como o ex-presidente de Gana, John Kufour ou a mulher do emir do Catar, Sheikha Mozah Al-Missned – por representar o motor-chave da integração e da estabilidade na América Latina.

Até a imprensa argentina se rendeu ao País.

Na última segunda-feira um dos mais importantes jornais de Buenos Aires, La Nación, publicou editorial ressaltando o nosso papel “de líder regional e ator global de primeira ordem.”

Elogios fazem bem ao ego, agora trazem escasso resultado prático. Exercer liderança exige a assunção de responsabilidade e tem alto custo financeiro.

Exige capacitação dissuasória e de igual forma poder de aconselhamento. E requisita, além disso, alinhamento coerente com as Nações que decidem.

Dois fatos causam estranheza às pretensões do Brasil e podem converter a possibilidade de liderança regional e atuação de primeira linha no cenário global: a incrível leniência com as molecagens do presidente da Venezuela e a aproximação com regimes perniciosos como o ostentado pela República do Irã.

Ao se julgar à altura de integrar o Conselho Permanente da Organização das Nações Unidas, o Brasil precisa entender que uma vez adquirida tal cadeira deixará o tráfego miúdo das “veias abertas da América Latina” para se envolver em problemas globais grandes, como o conflito do Oriente Médio.

A recepção que o Itamaraty fará no final do mês ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, cria um sentimento de desconfiança enorme em relação às nossas aspirações de projeção política.

O mesmo vale para o assentimento às patuscadas de Chávez e, em conseqüência, ao desencadeamento de conspirações antidemocráticas em vários países do subcontinente sul-americano.

Chávez seria um razoável animador de auditório se estivesse a se candidatar a substituto do Chacrinha, no entanto seu modelo de ditadura esquerdista passa a incomodar quando, ainda que em forma de bravata, ameaça instaurar conflito militar na região.

Muita gente vai dizer que o País, apesar de ser um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, possui um déficit energético que compromete o venezuelano de tomar um banho decente por dia, não estaria em condição de se aventurar em um empreendimento militar.

É aí que mora o perigo. O celerado coronel tem sim poder militar para iniciar um conflito com a Colômbia. Se o fizer estará a provocar um nacionalismo brancaleone, coisa que nunca foi boa providência na América Latina.

O presidente Lula em vez de conter o coronel lhe oferece palanque privilegiado no Mercosul. O Congresso Nacional tem a tradição de não tomar decisões de afogadilho e promover longa maturação de assuntos relevantes.

É o caso de o Senado aguardar os acontecimentos antes de promover uma medida precipitada e altamente desastrosa ao interesse nacional.

Em última análise, não acredito que Hugo Chávez vá à guerra, agora não subestimo a sua vocação de incendiário.

Está na hora de o Brasil por em evidência a sua liderança regional, provar que é um ator global confiável sob o ponto de vista de defesa da democracia e dizer não ao ditador.

Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM-GO)
Postado in globo.com.blogdonoblat.111109chavez_emperador_fanatismo.miniatura

31/03/2009

Vitamina do Sexo

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A vitamina do sexo – O que dizem sexólogo e nutricionista sobre a vitamina B3 – Por Maria Fernanda Schardong

O que você come pode revelar a qualidade do sexo que você pratica diz nutricionista. Alimentos ricos em vitamina B3 são fortes aliados de uma vida sexual saudável e mais ativa, garante Renata Gonçalves, do Grupo de Nutrição Humana (Ganep). Sexólogo diz que a alimentação é importante, mas faz ressalvas.

"Uma alimentação inadequada pode trazer prejuízos para a atividade sexual, uma vez que alguns nutrientes podem alterar a produção de hormônios, além de acentuar a tensão pré-menstrual (TPM) nas mulheres, por exemplo”, afirma a nutricionista.

Defensora da vitamina B3, Renata lembra que além de garantir melhor qualidade do sexo, ela ajuda a manter a pele saudável e beneficia os sistemas digestivo e nervoso. Também é indicada para tratar problemas circulatórios, pois ela dilata os vasos sanguíneos, fazendo com que o fluxo de sangue aumente em todo o corpo, inclusive nos órgãos sexuais.

Os nutrientes ligados aos hormônios sexuais são zinco, óleos ômega 3,6 e 9, magnésio e os bioflávonóides. Ainda segundo Renata, para intensificar o desejo sexual a alimentação deve conter pouco açúcar e gorduras saturadas. Ingerir carboidratos integrais como massas, pães e arroz, carnes magras, frutas, vegetais e legumes ajudam a melhorar o desempenho de homens e mulheres, afirma Renata.

O sexólogo Arnaldo Risman, da universidade da Terceira Idade da UERJ, no entanto, lembra que é necessário, quando se fala de sexo, avaliar cada caso, individualmente. “A vitamina B3 não faz nenhum milagre. Se a pessoa reclama da falta do desejo sexual, o melhor a fazer é procurar um médico”, afirma.

As principais fontes da vitamina B3 são: amendoim; castanha do Pará; levedura; fígado; aves; carnes magras; leite; ovos; frutas secas; cereais integrais; brócolis; tomate; cenoura; abacate e batata doce. As quantidades diárias para o consumo são de 15 mg para as mulheres e 19 mg para os homens.

O ideal, portanto, tanto para seguir uma dieta quanto para resolver problemas relacionados à sexualidade, é buscar ajuda profissional. Como afirma Risman, as formas de viver a sexualidade sempre vão variar de pessoas para pessoa.


Confira aqui:
Gmail – A vitamina do sexo saudável – spinola.net@gmail.com

15/12/2007

Pó de pirlimpimpim

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Pó de pirlimpimpim – Alcançar o aprendizado instantâneo é um desejo poderoso, pois o cérebro sem informação é pouco mais que estofo de macela. Emília, a sabida boneca de Monteiro Lobato, aprendeu a falar copiosamente após engolir uma pílula, adquirindo de supetão todo o vocabulário dos seres humanos ao seu redor. No filme Matrix (1999), a ingestão de uma pílula colorida faz o personagem Neo descobrir que todo o mundo em que sempre viveu não passa de uma simulação chamada Matriz, dentro da qual é possível programar qualquer coisa. Poucos instantes depois de se conectar a um computador, Neo desperta e profere estupefato: "I know kung fu".

cérebro

Entretanto, na matriz cerebral das pessoas de carne e osso, vale o dito popular: "Urubu, pra cantar, demora". O aprendizado de comportamentos complexos é difícil e demorado, pois requer a alteração massiva de conexões neuronais. Há consenso hoje em dia de que o conteúdo dos nossos pensamentos deriva dos padrões de ativação de vastas redes neuronais, impossibilitando a aquisição instantânea de memórias complexas.

Mas nem sempre foi assim. Há meio século, experimentos realizados na Universidade de Michigan mostraram que as planárias, vermes aquáticos passíveis de condicionamento clássico, eram capazes de adquirir, mesmo sem treinamento, associações estímulo-resposta por ingestão de um extrato de planárias previamente condicionadas (McConnell, J Neuropsychiat, 3: 542-548, 1962). O resultado, aparentemente revolucionário, sugeria que os substratos materiais da memória são moléculas. Contudo, estudos posteriores demonstraram que a ingestão de planárias não-condicionadas também acelerava o aprendizado, revelando um efeito hormonal genérico, independente do conteúdo das memórias presentes nas planárias ingeridas (Hartry et al., Science, 146: 274-275, 1964).

A ingestão de memórias é impossível porque elas são estados complexos de redes neuronais, não um quantum de significado como a pílula de Emília. Por outro lado, é perfeitamente possível acelerar a consolidação das memórias através da otimização de variáveis fisiológicas naturalmente envolvidas no processo. Uma linha de pesquisa importante diz respeito ao sono, que comprovadamente beneficia a consolidação de memórias. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Lübeck, Alemanha, testou os efeitos mnemônicos da estimulação cerebral com ondas lentas (0,75 Hz) ou rápidas (5 Hz) aplicadas durante o sono por meio de um estimulador transcraniano magnético. Os resultados mostraram que a estimulação de baixa freqüência (mas não a de alta) é suficiente para melhorar significativamente o aprendizado de diferentes tarefas em humanos (Marshall et al., Nature, 444: 610-613, 2006). Ao que parece, as oscilações lentas que caracterizam o sono sem sonhos são puro pó de pirlimpimpim.

Sidarta Ribeiro é Ph.D. em neurobiologia pela Universidade Rockefeller e pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN). Fez pós-doutorado na Universidade Duke (2000-2005) investigando as bases moleculares e celulares do sono e dos sonhos e o papel de ambos no aprendizado. Confira no hyperlink: Pó de pirlimpimpim – Mente e Cérebro

11/12/2007

Deus, um delírio

Arquivar em: Ecumenismo, Sem Categoria — hilltop @ 15:24

Deus, Um Delírio – Richard Dawkins narra um conto cheio de som e fúria, que levanta dúvidas sobre a sua própria compreensão da realidade. Richard Dawkins passou grande parte do ano passado pensando em Deus. Em janeiro, estrelou um programa televisivo sobre Deus e a religião: The Root of All Evil? [“Raiz de todos os males?”]. Deus foi um assunto constante na sua nova página oficial. Dawkins brigou com Deus no rádio, falou de Deus para a revista TIME; chegou mesmo a ler um livro sobre Deus em público e em voz alta. O livro, evidentemente, era o seu próprio: The God Delusion [traduzido no Brasil como Deus, um delírio]. Dawkins descreve-o como sendo “provavelmente a culminância” da sua guerra contra a religião. Embora seja um catatau de 416 páginas, trata-se de uma leitura fácil e, poderíamos dizer, leve. Há nele poucas coisas que Dawkins não tenha dito antes. O estilo é despojado e a estrutura, concisa.

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O autor começa por isentar cientistas como Einstein de quaisquer suspeitas acerca de crenças religiosas e também por condenar o lugar privilegiado que a religião ocupa na sociedade. Depois, argumenta contra o agnosticismo, baseando-se na idéia de que a “hipótese Deus” é científica e, portanto, empiricamente verificável. Os dois capítulos subseqüentes são dedicados a desmontar os argumentos favoráveis à existência de Deus. Um deles trata do argumento ontológico, da primeira via de São Tomás e de diversos argumentos psicológicos; o outro se detém exclusivamente no argumento do design inteligente.

Dawkins foca a sua atenção na religião em geral. Medita sobre as possíveis razões para a ubiqüidade da religião nas sociedades humanas e tenta explicar o sentido moral por meio do conceito darwiniano de seleção natural. Nos três capítulos seguintes, parte para a ofensiva: diz que os preceitos religiosos são imorais, que as crenças religiosas causaram a maioria dos problemas do mundo; chama de abuso mental a educação das crianças numa fé específica. O capítulo final traz a visão de Dawkins sobre o modo como a ciência pode ocupar o papel inspirativo que teria sido usurpado pela religião.

Se encarado como um trabalho sério, o livro tem poucos méritos. Há poucas referências diretas a textos de filosofia e teologia (ou mesmo de ciência, diga-se de passagem). Os argumentos mais ricos e conhecidos são os que menos atenção recebe: dedicam-se apenas três páginas a Tomás de Aquino. O tom de conversa confere ao texto clareza pelo preço da superficialidade; Dawkins esgrime abundantes metáforas, mas poucos argumentos. Atua como um franco-atirador. Se as pessoas acreditassem realmente em Deus, não se sentiriam tristes quando estão para morrer. O Deus do Antigo Testamento é “ciumento, mesquinho, injusto, implacável, opressor; um genocida vingativo e sedento de sangue”… (esse epítetos continuam por várias linhas). A maior parte do livro é constituída por episódios pessoais, piadas engraçadinhas sobre fundamentalistas cristãos, terroristas islâmicos e devoções populares católicas, e há ainda histórias de terror sobre o fanatismo religioso.

  • POPULARIDADE E PERSUASÃO

Por outro lado, é quase certo que Dawkins não quis escrever um trabalho acadêmico. Afinal, ele ocupa a cátedra Charles Simonyi para a Compreensão Pública da Ciência, e “compreensão pública”, para Dawkins, significa somente duas coisas: popularidade e persuasão. É certo que The God Delusion se tornou popular. Atingiu o segundo lugar na lista de mais vendidos da Amazon.com e atualmente o nono na seção de não-ficção em capa-dura do New York Times. Contudo, a obra deve ser vista num contexto mais amplo. Trata-se de um livro essencialmente moderno. Teve o seu terreno preparado pela série de TV The Root of All Evil? Foi inflado por uma legião de blogueiros e pela página oficial de Dawkins. Chegou tempestuosamente às prateleiras, “cheio de som e fúria”. Particularmente, eu estava esperando também bonés e adesivos de carro promocionais. A personalidade e a posição de Dawkins asseguraram a popularidade de The God Delusion. E quanto à persuasão? Em primeiro lugar, deixemos claro que Dawkins queria uma persuasão de tipo psicológico. O autor diz explicitamente que deseja conscientizar o público para quatro pontos: a força da seleção natural como ferramenta de explicação do mundo; a educação religiosa como abuso infantil; a possibilidade de se ser feliz, equilibrado, e realizado moral e intelectualmente como ateu; e o “orgulho ateu” como um contraponto da perseguição aos ateus. Dawkins quer que as pessoas “enredadas na religião” sejam capazes de “sair do armário” e assumir o seu ateísmo.

Nesse sentido, o livro pode ser visto como um tipo de guia de auto-ajuda para ateus. O subtítulo poderia ser: Como eu descobri o ateísmo e como você também pode fazê-lo. Há um apêndice com entidades de apóio àqueles que precisam de “ajuda para escapar da religião”. Só faltou mesmo uma seção de encontros (ateu de 40 anos procura uma companheira…). Embora Dawkins ache a idéia do culto à personalidade algo “altamente indesejável”, conforme disse ao Sunday Times, o seu livro está abarrotado de episódios pessoais e risonhas digressões em louvor da sagacidade coletiva do autor e dos seus pares intelectuais. Espera-se que nos sintamos privilegiados por captar esse lampejo do sutil intelecto da elite evolucionista. Mas será que isso persuade alguém?

  • A SELEÇÃO NATURAL MAL APLICADA

A seleção natural é uma teoria extremamente poderosa e Richard Dawkins nutre uma paixão incomum por expressá-la. Ainda assim, cai numa redundância insolúvel ao aplicá-la à filosofia. Veja-se, por exemplo, a maneira como trata da moral. Sustenta que temos códigos morais porque estes foram uma vantagem seletiva no passado. Como sabemos que os códigos morais eram uma vantagem seletiva? Porque nós os temos. Expressando em silogismo:

1) Os códigos morais existem porque sobreviveram e foram bem-sucedidos.

2) Os códigos morais que sobreviveram e foram bem sucedidos existem.

3) Logo, os códigos morais existem porque existem.

Ficamos, portanto, com uma moral que tínhamos de ter: uma conclusão redundante e determinista. (Curiosamente, Dawkins simplesmente “não está interessado” no tema do livre arbítrio.) A mesma conclusão inadequada vale para as suas aplicações da seleção natural a todos os fenômenos metafísicos: Deus, a causalidade, a verdade e a própria existência. A seleção natural por si só não é capaz de explicar o "por que" de nada.

A próxima conscientização de Dawkins – “não existe essa história de crianças cristãs” – é uma simples manifestação do seu preconceito anti-religioso. Ele admira-se de uma criança religiosa não seja considerada algo tão odioso como o seria uma “criança marxista” ou mesmo uma “criança atéia”. Será que a existência de crianças “inglesas” ou “indianas” o deixa igualmente nervoso? E um “criança judia”? E a “criança aborígine”? No fundo, Dawkins esconde o seu objetivo real – descolar a religião da identidade cultural – com uma acusação sentimental de abuso infantil. (Um dos subtítulos leva o tocante nome de “Em defesa das crianças”).

Acaso o livro de Dawkins atinge a sua meta principal? Fomenta o “orgulho ateu” e ajuda as pessoas que têm fé e inteligência a “saírem do armário”? Parte da resposta ainda está para ser vista. Uma outra parte, pequena, é evidente: as pessoas que concordam com Dawkins provavelmente vão achar o livro engraçado, e talvez desenvolvam um pouco de orgulho. O mais provável é que se tornem arrogantes.

  • A SÍNDROME DA TORRE DE MARFIM

Pouquíssimas pessoas estão dispostas a seguir Dawkins sem restrições. Isso que ele poderia chamar de “destino solitário de um pioneiro intelectual” pode ser simplesmente a síndrome da torre de marfim. A revista The Economist foi uma das suas poucas fontes de apoio integral – o que não é surpresa. Mas o aliado mais próximo de Dawkins, Daniel Dennett, enxerga alguma utilidade na religião, e não está convencido de que ela devesse “votada à extinção”. O físico Lawrence Krauss, na revista Nature, desejou que o autor “não fosse além das suas forças” e evitasse fazer sermões. O marxista Terry Eagleton descreve Dawkins como alguém “assombrosamente sacana…, teologicamente analfabeto” que nem sequer fala por todos os ateus. Na verdade, Dawkins seria apenas um representante “da classe média liberal e racionalista da Inglaterra”.

Richard Kirk faz a crítica mais destrutiva do livro, ao qualificá-lo de “um exemplo de descaso…, uma diatribe gárrula e mal editada”. A crítica constante é de que Dawkins não conhece o seu inimigo; antes, põe um espantalho no seu lugar. Mas isso não é tudo. Dawkins confecciona um espantalho, mas acerta a sua lança nos blocos de feno que estão no cercado. Depois, pragueja contra o capataz que pôs o feno ali e castiga o gado por ter causado um alvoroço. Um exemplo desse seu comportamento quixotesco é o seu argumento central. Dawkins acredita que a assim chamada “hipótese Deus” – a de que “existe uma inteligência sobre-humana e sobrenatural que projetou e criou deliberadamente o universo e tudo o que ele contém, inclusive nós” – é cientificamente suscetível de ser verificada. Ciência, no sentido moderno, é o estudo das coisas naturais ou físicas. Pois então como pode verificar uma hipótese que é, por definição, sobrenatural e metafísica?

Dawkins, na verdade, não acredita que Deus é cientificamente verificável. Mas não admite nenhuma epistemologia além da ciência. O seu raciocínio pode ser resumido da seguinte maneira: não existe realidade imaterial, portanto Deus não existe. Não é de admirar que ele “não esteja interessado” no livre arbítrio, ou na razão da existência da própria matéria. Dawkins não esclarece nenhum problema filosófico real. É um positivista démodé que tem preconceito contra a metafísica; a sua verdadeira querela deveria ser com os estruturalistas e desconstrucionistas, pois foram eles que conduziram o positivismo à sua conclusão lógica e, para Dawkins, indesejada. Mas ele, evidentemente, não se incomoda com isso; toca o tema apenas de passagem ao qualificá-lo de “alta francofonia”.

Dawkins acredita que a maior partes das pessoas estaria delirando, mas alguém poderia perguntar se Dawkins está assim tão sóbrio. As suas afirmações acerca de perseguição e marginalização soam suspeitosamente como paranóia, a sua verborréia nauseabunda beira a obsessão, e ele demonstra uma profunda ausência de noção acerca da sua competência filosófica, ou melhor, da sua falta de competência filosófica. Este livro pode fazer Dawkins perder mais amigos do que ganhá-los. Pode ser que em breve ele esteja navegando sozinho – rumo a quem sabe onde – com a sua própria carga de delírios. Pelo menos, ainda poderá rir das suas próprias.

Phillip Elias – Formado em História e estudante de Medicina na Universidade de New South Wales, em Sydney (Austrália).

4/12/2007

A idéia de deus

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A IDÉIA DE DEUS E A LIBERDADE HUMANA

 
deuses

Todas as religiões, com os seus deuses, os seus semideuses e os seus profetas, os seus messias e os seus santos, foram criadas pela fantasia crédula de homens que não atingiram ainda o pleno desenvolvimento e a plena posse das suas faculdades intelectuais. Em conseqüência, o céu religioso não passa de uma miragem na qual o homem, exaltado pela ignorância e pela fé, reencontra a sua própria imagem, mas dilatada e invertida, isto é, divinizada.

deusa

A história das religiões, a história do nascimento, da grandeza e da decadência dos deuses que se sucederam na crença humana, não é mais do que o desenvolvimento da inteligência e consciência coletivas dos homens. À medida que na sua marcha historicamente progressiva descobriam, em si mesmos ou na natureza exterior, uma qualquer força, qualidade ou mesmo grande defeito, atribuíam-no aos seus deuses, depois de os ter exagerado e ampliado desmedidamente, como o fazem normalmente as crianças, num fato da sua fantasia religiosa.

deusa

Graças a essa modéstia e a essa piedosa generosidade dos homens crentes e crédulos, o Céu enriqueceu-se com os despojos da Terra e, por conseqüência, quanto mais rico se tornou o Céu, mais miserável se tornou a Terra. Uma vez instalada a divindade, foi naturalmente proclamado a causa, a razão, o árbitro e o distribuidor absoluto de todas as coisas: o mundo passou a ser nada, a divindade tudo. E o homem, seu verdadeiro criador, depois de tê-la extraído do nada, sem disso se dar conta, pôs-se de joelhos perante ela, adorou-a e proclamou-se sua criatura e seu escravo.   

god

O cristianismo é precisamente a religião por excelência, porque expõe e manifesta, na sua plenitude, a natureza, a própria essência de todo e qualquer sistema religioso, que é o empobrecimento, a submissão, o aniquilamento da humanidade em benefício da divindade.    Sendo Deus tudo, o mundo real e o homem são nada. Sendo Deus a verdade, a justiça, o bem, o belo, a força e a vida, o homem é a mentira, a iniqüidade, o mal, a feiúra, a impotência e a morte. Sendo Deus o senhor, o homem é o escravo. Incapaz de encontrar por si mesmo a justiça, a verdade e a vida eterna, a elas não pode chegar senão mediante uma revelação divina. Mas quem diz revelação diz reveladores, messias, profetas, sacerdotes e legisladores inspirados pelo próprio Deus; e, uma vez reconhecidos como representantes da divindade na Terra, como os santos pastores da humanidade, eleitos pelo próprio Deus para dirigir pela via da salvação, devem necessariamente exercer um poder absoluto. Todos os homens lhes devem uma obediência passiva e ilimitada, porque contra a razão divina não há razão humana, e contra a justiça de Deus não há justiça terrena que lhes valha. Escravos de Deus, os homens devem sê-lo também da Igreja e do Estado, na medida em que este último é consagrado pela Igreja.

deusadeusadeusa

Foi isso que o cristianismo compreendeu melhor que todas as religiões que existem ou existiram, sem excetuar a maioria das antigas religiões orientais (que, aliás, só abarcaram determinados povos, enquanto que o cristianismo tem a pretensão de abarcar a humanidade inteira); foi isso que, entre todas as seitas cristãs, só o catolicismo romano proclamou e realizou com uma conseqüência rigorosa. É por isso que o cristianismo é a religião absoluta, a última religião, e a Igreja apostólica e romana a única conseqüente, a única coerente.    Agrade ou não aos metafísicos e aos idealistas religiosos, filósofos, políticos ou poetas, a idéia de Deus implica a abdicação da razão humana e da justiça humana; é a negação mais decisiva da liberdade humana e leva necessariamente à escravidão dos homens, tanto em teoria como na prática.    A não ser que se queira a escravidão e o envilecimento dos homens, como o querem os jesuítas, como o querem os pietistas ou os metodistas protestantes, não podemos nem devemos fazer a menor concessão, quer ao Deus da teologia quer ao da metafísica. Porque, nesse alfabeto místico, quem começa por Deus deverá acabar fatalmente acabar em Deus, e quem adorar a Deus deve, sem ilusões pueris, renunciar corajosamente à sua liberdade e à sua humanidade.    Se Deus existe, o homem é escravo. Porém, o homem pode e deve ser livre – por conseguinte, Deus não existe.

M. Bakunin in Deus e o Estado

25/11/2007

A Democracia da Atualidade

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A Democracia da Atualidade e Seus Limites: O Financiamento Público de Campanhas Eleitorais -  “Não é da escassez da informação que padecem [as sociedades da América Latina], mas da abundância de informação caolha, sendo sua mais importante fonte o retrato que, cotidianamente os meios de comunicação distribuem à opinião pública nacional e internacional. (…) Ainda mais pernicioso do que ocasionar desastres individuais é o mau serviço que se presta não somente ao regime democrático, mas à verdade dos fatos, quando se generaliza, levianamente, a toda a classe política deficiências que são personalizadas”, Wanderley Guilherme dos Santos.
•    I – Em 13 de janeiro de 2001, mais de quinhentos professores de Direito Constitucional de diversas e renomadas academias de Direito dos Estados Unidos da América fizeram publicar nota no jornal The New York Times com forte reprovação a decisão da Suprema Corte daquele País no caso Gore vs. Bush. Como é do conhecimento de todos a ordem da Suprema Corte para proibir a recontagem de votos em determinados municípios do Estado da Flórida proporcionou a primeira vitória eleitoral de George Bush, ainda que ele não obtivesse a maioria dos votos da população.
 
corte da bandeira
 
Porém, a mais contundente de todas as críticas surgiu alguns meses depois: a obra do Professor de Direito Constitucional da não menos renomada Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, Allan Dershowitz, intitulada, em português de “Suprema Injustiça – Como a Suprema Corte Seqüestrou a Eleição de 2000”2. Dentre os diversos momentos de crítica, Derwshowitz tanto define como ficarão conhecidos a Corte e seus membros perante a história: sob a determinação irrevogável de terem tomado uma “decisão corrupta no mais importante de todos os casos em que foram testados”3, como traz ainda a opinião de diversos professores de Direito a qualificaram a decisão de “fraudulenta”, “ilegítima” e “partidária”4. Que referido episódio é claramente demonstrativo da precariedade democrática nos Estados Unidos da América5, não me proponho a discutir neste texto.
 
Presidente dos EUA
 
Por outro lado e para além do fato de uma eleição ter sido decidida pelo Poder Judiciário com base em preferências políticas de seus integrantes, não foram poucas as vozes a afirmarem que a vitória na Corte representava somente uma face de um complexo conjunto de acontecimentos, onde o poder econômico da família Bush e de seus aliados desempenhou um papel fundamental. Greg Palast, conhecido jornalista americano, foi apenas uma destas vozes. Na sua obra, relata Palast, por exemplo, o drama do Estado da Califórnia com o consumo de energia elétrica. Em 2001, George Bush ordenou a construção de usinas atômicas naquele Estado, sempre ameaçado por terremotos. A construção de tais usinas ficaria a cargo da Empresa Brown & Root, subsidiária da Halliburton Corporation, cujo chefe recente havia sido o Vice-Presidente, Dick Cheney. Ainda assim, pouco antes do fim de seu mandato Bill Clinton criou barreiras ao mercado de energia na Califórnia. Cinco empresas TXU, Reliant, Dynergy, El Paso Corporation e a antiga Enron colaboraram com 4,1 milhões de dólares para a campanha de Bush, e apenas três dias após sua posse, “Bush revogou as ordens de Clinton para o fornecimento de energia na Califórnia”6, beneficiando, principalmente, estas empresas. (Veja o texto completo indo a 'páginas' na margem direita deste blog).Martonio Mont'Alverne Barreto Lima. – Doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt – Coordenador do Mestrado em Direito Constitucional da UNIFOR e Procurador do Município de Fortaleza.

24/11/2007

A Bíblia

Arquivar em: Sem Categoria — hilltop @ 04:04

A Bíblia - A Bíblia é o livro mais vendido de todos os tempos. É também um dos menos lidos. A imagem que se tem da Bíblia é de um livro santo, que prega o amor, a bondade, a humildade. Ledo engano. A Bíblia, principalmente o Antigo Testamento, tem passagens sangrentas e cruéis, de fazer inveja aos piores filmes de horror.

Bíblia

Quando Moisés desceu do Monte Sinai com as tábuas da lei percebeu que seus seguidores faziam orgias e adoravam um bezerro de ouro (Êxodo, 32:27-8). Furioso, vociferou: “Ponde cada um de vós a espada a seu lado. Percorrei o acampamento e voltai, de portão a portão, e matai cada um o seu irmão, e cada um o seu próximo, e cada um o seu conhecido próximo”. “E os filhos de Levi passaram a fazer o que Moisés dissera, de modo que naquele dia caíram do povo cerca de três mil homens”. Em Deuteronômio 20:10 e sgs., encontramos trechos horripilantes. Jeová, o Deus do Antigo Testamento, o mesmo que dissera “não matarás”, aconselha aos hebreus que, ao encontrarem outro povo, façam proposta de paz. Se aceitarem a paz, deverão ser escravizados para fazer trabalho forçado. Se recusarem a proposta de paz, Jeová os entregará nas mãos dos hebreus, que deverão matar todos os homens com o fio da espada. Em seguida, deverão saquear todos os despojos, inclusive as mulheres, as criancinhas e os animais domésticos. No mesmo livro, cap. 7, Jeová diz que seu povo escolhido deverá aniquilar sete povos que lhes serão oferecidos. “E tens que consumir todos os povos que Jeová, teu Deus, te dá. Teu olho não deve ter dó deles”. Jeová não brinca em serviço. Em II Crônicas 15:13, sentencia: “…todo aquele que não procurar por Jeová, o Deus de Israel, seja jovem ou velho, homem ou mulher, deverá ser morto”. Em Êxodo 22:20, demonstra sua absoluta intolerância: “Quem oferecer sacrifícios a quaisquer deuses, e não somente a Jeová, deverá ser completamente destruído”. 

Em Deuteronômio 22:22-23: “Caso um homem seja encontrado deitado com uma mulher que não tenha dono, ambos têm que morrer junto…” E continua: “… tendes que levá-los para fora do portão daquela cidade e tendes de matá-los a pedradas, e eles têm que morrer”.

Em Deuteronômio 21:18, Jeová ordena que, se um homem tiver um filho obstinado e rebelde, ele e a mãe devem levá-lo para fora da cidade, chamar os anciãos e dizer-lhes que o filho deverá morrer. Todos os homens da cidade deverão atirar pedras nele até morrer. Obra no sábado deverá ser morto. Sendo assim, toda a cristandade, com a possível exceção dos adventistas (que guardam o sábado), deveria ser exterminada da face da terra. 

Olho por olho – a pena de talião – é a lei do Antigo Testamento. Não há lugar para perdão nem piedade. No entanto, Jesus, o mesmo Jesus que mandou dar a outra face, no Novo Testamento, também tem momentos de furor, como em Mateus 10:34: “Não penseis que vim estabelecer paz na terra; vim estabelecer, não a paz, mas a espada. Pois vim causar divisão; o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe. Deveras, os inimigos do homem serão pessoas de sua própria família. Quem tiver maior afeição pelo pai ou pela mãe maior que por mim, não é digno de mim; e quem tiver maior afeição pelo filho ou pela filha que por mim não é digno de mim”. Quem duvidar, que confira! – Por Huascar Terra do Valle. Saiba mais indo a "Páginas" na margem direita deste blog.

16/11/2007

Alhos com bugalhos

Arquivar em: Sem Categoria — hilltop @ 19:35
Presidente confunde alhos com bugalhos (de novo!) – Do blog da cientista política Lúcia Hippolito: "As mais recentes declarações do presidente Lula merecem alguma reflexão, sem passionalismos nem partidarismos. Esperamos todos que tenham sido palavras resultantes de boa-fé – e muita desinformação. Em primeiro lugar, a tal democracia venezuelana. Afirma o presidente que não se pode criticar Hugo Chávez por falta de democracia na Venezuela: “…já teve três referendos, já teve três eleições não sei para quê, quatro plebiscitos, ou seja, o que não falta é discussão.” Expurgando-se o exagero retórico do presidente, referendos e plebiscitos não são sinal de democracia.
 
cabeça
 
Ditaduras também convocam referendos e plebiscitos – o que vem mais rapidamente à memória é o convocado pelo general Pinochet, em meio à feroz ditadura chilena. Quanto às eleições, basta lembrar a ditadura brasileira, que durante 21 anos manteve eleições para o Congresso, para as Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais, além de eleições para milhares de prefeitos em todo o país.
Dessa forma, os militares brasileiros representavam para o mundo a mímica da democracia. Sinais de democracia são, além evidentemente, de eleições livres e limpas; instituições sólidas; justiça ao alcance de todos; poderes harmoniosos e independentes; imprensa livre; ética no trato da coisa pública; impessoalidade na administração pública; meritocracia; respeito às posições da oposição; alternância no poder – entre outros atributos de um regime democrático.
Mas o presidente não parou aí, em sua confusão de alhos com bugalhos, de germano com gênero humano. Misturando presidencialismo com parlamentarismo, sua Excelência afirmou que ninguém reclamou da longa permanência de Margareth Thatcher, Felipe González, François Mitterrand e Helmut Kohl no poder. Só para não confundir ainda mais: Thatcher, González e Kohl foram primeiros-ministros em sistemas parlamentaristas.
Mitterrand foi presidente da República francesa (1981-1995). Vamos por partes. No parlamentarismo, não há mandatos fixos. O primeiro-ministro permanece no poder enquanto conta com a confiança do Parlamento. Há casos de primeiros-ministros eleitos pelo povo – são raros –, mas mesmo estes só permanecem no cargo enquanto contarem com a confiança do Parlamento. É da natureza do sistema parlamentar. No presidencialismo, ao contrário, os mandatos são fixos. Têm data para começar e para terminar. E os presidentes só podem ser apeados do poder por um golpe de Estado ou por um processo legítimo de impeachment – instrumento doloroso, que é utilizado muito raramente pelos países presidencialistas. A duração do mandato presidencial (com reeleição ou não) varia muito, de país para país. Nos Estados Unidos, o presidente tem direito a dois mandatos de quatro anos – e é só. Depois, nunca mais poderá se candidatar a presidente novamente.
Na França, o presidente era eleito por sete anos – caso de Mitterrand –, mas podia ser reeleito quantas vezes quisesse, ou o eleitorado agüentasse. Uma emenda constitucional votada em 2000 – e aprovada em referendo – diminuiu para cinco anos o mandato, mas a reeleição continua livre.
No Brasil, a população foi às urnas em 1993 escolher o sistema de governo. E escolheu o presidencialismo. Escolheu que quer eleger seus governantes para um mandato fixo, com data para entrar e data para sair. Por enquanto, a Constituição brasileira determina que o mandato seja de quatro anos, com direito a uma reeleição. Portanto, se o presidente Lula gosta de mandatos longos, que proponha a mudança do sistema. No parlamentarismo, o primeiro-ministro competente pode se eternizar no cargo. Mas o incompetente pode ser apeado dele rapidinho. Já no presidencialismo, o presidente pode ser incompetente à vontade, que só sai no dia marcado.
Impeachment é muito fácil de propor, mas muito difícil e doloroso de implementar". Postado no Blog do Noblat in O Globo Online em 16.11.07
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