Cume - Escalando Montanhas

16/12/2006

a memória

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A memória, o Chile e a frase da semana - 16.12.06 - Vitor Hugo Soares - “Tenho memória, acredito na verdade e aspiro à justiça”. Pronunciada pela presidente do Chile, Michelle Bachelet, em resposta aos que questionavam a sua decisão de não decretar honras de Estado na morte de Augusto Pinochet, esta é, sem sombra de dúvida, a frase da semana. As palavras da governante socialista foram manchete no jornal La Tercera, de Santiago, e, este espaço, são as minhas indicadas como “frase do ano” dos cadernos com a retrospectiva dos fatos de 2006, que começam a sair nos jornais, revistas e outros veículos de comunicação do País. A indicação vale igualmente para os blogs na internet, tal a expressividade do seu significado como síntese explicativa da firme medida de governo e, implicitamente, sobre a figura do condutor de uma das mais perversas e sanguinárias ditaduras da América Latina e do planeta. No fim da vida, como todo falso moralista, o ditador chileno se desnudaria também como deslavado larápio de dinheiro público, metido durante anos em tenebrosas negociações, como revela a fortuna depositada em conta de banco estrangeiro. Bachelet, que igualmente não aprova os excessos na alegria das celebrações pela morte do ex-ditador, disse nesses últimos dias muito mais coisas e assumiu outras atitudes merecedoras de reflexões apuradas. E isso deve ser feito não só em seu país espremido entre dois gigantes da natureza – a farta, bela e maternal costa do Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, onde se está sempre a um passo de surpreendentes e não raros devastadores rompantes vulcânicos. Ou dos pequenos tremores que mais de uma vez me fizeram acordar com cama do hotel balançando em Santiago.

O que diz a presidente deve merecer atenção igualmente por quem acompanha as movimentações políticas e sociais pelas bandas de cá do hemisfério sul – na ampla costa do Atlântico, no indecifrável espaço aéreo sobre a floresta amazônica, ou às margens do Lago Paranoá.

Em Santiago, as exéquias de Pinochet expuseram a face de um país em invejável expansão econômica, mas com visíveis fraturas políticas e sociais. No ambiente de caserna da Escola Militar, a presença marcante da fina flor da classe média chilena (magnatas dos negócios finamente trajados, ao lado de suas mulheres e filhas com negros e vistosos vestidos da última moda, óculos escuros das mais finas grifes européias e norte-americanas) chorava o defunto. Em fila, beijavam a viúva Lucia e parentes do ditador, alguns oficiais militares e clérigos, políticos e ex-auxiliares saudosistas e beligerantes.

Nas ruas e praças de Santiago, as manifestações populares para lembrar do ex-presidente Salvador Allende, deposto e morto a balaços em meio ao bombardeio sobre o palácio La Moneda; do músico Victor Jara (Te recuerdo Amanda), morto sob tortura e com os pulsos partidos no Estádio Nacional; do poeta Pablo Neruda, falecido dias depois do golpe – para citar apenas três nomes referenciais de vítimas do regime de Pinochet. Pais, mães, avós, filhos e companheiros exibiam fotos para lembrar os três mil mortos e desaparecidos nos 17 anos da ditadura Pinochet.

Em Meu Último Suspiro, o cineasta espanhol Luis Buñuel escreveu um dos capítulos mais cruciais sobre a memória. Partiu de uma experiência pungente com sua mãe, que nos últimos dias de vida, em Saragoza, “chegou ao ponto de já não reconhecer seus filhos, de já não saber quem éramos nós, quem era ela”. A memória, indispensável e toda-poderosa, assinala Buñuel, é também frágil e ameaçada. Não apenas pelo esquecimento, seu velho e natural inimigo, “mas pelas lembranças enganosas que dia a dia nos invadem”.

O diretor de A Bela da Tarde confessa ter imaginado introduzir uma cena, num filme, na qual um homem tentaria contar uma história a um amigo. A cada quatro palavras, porém, o homem esquece uma, geralmente palavras simples como “carro”,

“rua”, “policial”. O homem gagueja, “procura equivalências patéticas”, até que o amigo, irritado, o esbofeteia e se retira. Buñuel conclui: nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. “Sem ela, não somos nada”.

Eis outra fase também digna de meditação neste finalzinho de 2006. Ano conturbado até o final, mas repleto de boas expectativas.  Tanto no Chile pós Pinochet, que Michelle Bachelet governa com a sensibilidade e a firmeza dos que conservam suas lembranças em dias, quanto no Brasil, onde governantes e políticos dão sinais preocupantes de perda de memória.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor de Opinião de A TARDE. E-mail: vitors.h@uol.com.br

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