Cume - Escalando Montanhas

9/12/2006

a grande crise (3)

Arquivado em: Sem Categoria — hilltop @ 02:30

África pré-colonial? África tradicional? Apesar da força considerável dos hábitos e das falsas evidências do senso comum, temos de nos decidir de maneira definitiva a deixar de concentrar estes longos séculos sob o epíteto aparentemente cômodo, mas inteiramente anacrônico e errado, de "pré-coloniais". Registra-se, com efeito, pelo menos, um erro de perspectiva, quando não um preconceito prenhe de implicações intelectuais, mas também políticas, quando se pretende dar um sentido à evolução muito longa e inacabada de um continente e partir do último século da sua história: o século colonial. Semelhante miopia não se explica apenas pelo fato de este século ser o mais próximo de nós. Deriva também do fato de muitos continuarem a aí encontrar a legitimidade das suas posições atuais. Ora, o mínimo que se pode exigir ao historiador é que se abstraia, até onde for possível, das pressões afetivas e sociais do tempo presente. De resto, todas as características que as duas lendas da colonização - a lenda negra e a lenda dourada - lhe atribuem encontram-se com uma intensidade variável conforme as regiões e as épocas, no período abusivamente designado como "pré-colonial": abertura aos mundos exteriores; hegemonismos externos e internos; polarizações sociais; pauperização, dependência e desigualdade dos ritmos de crescimento econômico e das formas de desenvolvimento social; alienação, aculturação ou afirmação de personalidades próprias…

A noção de "civilizações tradicionais", mesmo se dispondo em bloco de um crédito maior, não é em nada mais adaptada do que o conceito de "África pré-colonial". Começa hoje a ver-se que a "invenção da tradição" (E. Hobshawm e T. Ranger), fenômeno que não é exclusivamente africano, foi o resultado de um processo complexo para o qual concorrem as obras clássicas da etnologia, as elites políticas e intelectuais africanas e a maior parte das próprias sociedades africanas. O conceito de "civilizações tradicionais", cuja elaboração, produção e significações constituem um dos objetos da história, não poderia por isso tornar-se, de maneira alguma, um instrumento teórico nas mãos do historiador. Com efeito, não o permite que se encerre a África negra numa espécie de opacidade cultural e num imobilismo do qual, para seu bem ou para seu mal conforme as opiniões, só teria saído sob o efeito dos recursos ou das pressões exteriores? Ver-se-á neste livro que, longe de estar cheio apenas com as continuidades, este tempo longo do passado africano foi talvez, em primeiro lugar, o das invenções contínuas, sob a forma de uma incessante "manipulação", de laboriosas adaptações ou de rupturas radicais.

Exercício obrigatório do ofício de historiador trabalhando sobre África, a procura de uma etiqueta que seria indispensável custe o que custar colocar sobre períodos previamente determinados pelos especialistas constitui, por isso, sem a menor dúvida, um exercício assaz vão e estéril. Basta dizer aqui porque razão e em que sentido se retiveram os séculos VII e XVII. A escolha do terminus a quo depende essencialmente de considerações historiográficas. O século VII, - que deve ser considerado naturalmente uma data larga - é o momento em que, saindo dos "séculos obscuros" (R. Mauny), a África se presta enfim a todas as exigências do historiador. Antes desta época este era obrigado a colaborar a maior parte das vezes em situação minoritária com outros saberes - arqueologia, pré-história, paleontologia, biologia, genética, lingüística… - cujas interrogações e contribuições constantemente renovadas aparecem dotadas de uma fecundidade insubstituível. Mais ou menos a partir do séc. VII o historiador dispõe de um poder soberano sobre um domínio cujos limites alarga constantemente e que sabe, se tal for necessário, partilhar com as outras disciplinas. Sabe-se que a produção do saber histórico deste período só foi possível graças a consideráveis inovações metodológicas tais como a revalorização e a exploração das fontes orais e teóricas, ou a formulação de perguntas constantemente renovadas ao passado africano. Quanto ao terminus ad quem, parece-me que ele se afirma vantajosamente nos finais do século XVIII ou nos princípios do século XIX, de preferência ao fim do século XIX, no momento da intrusão colonial, como se pensa habitualmente. É, com efeito, na viragem dos séculos XVIII e XIX que, sem negar a importância das rupturas ulteriores, se assiste claramente à afirmação das dinâmicas e tendências pesadas, estudadas no volume II, que iriam prolongar-se sob a colonização e algumas vezes até à nossa época.

Continuidade, adaptações, cesuras: é na combinação destes processos que se exprime, em África como alhures, o movimento da história. A particularidade relativa da África reside na natureza dos objetos que dão melhor conta destes processos. Ora, estes objetos revelam-se cada vez mais numerosos e cada vez mais diversos. É necessário reler hoje os grandes clássicos deste último meio século para medir o caminho percorrido e para nos darmos conta a que ponto, e com que rapidez, se alargou o "território do historiador" consagrado à África. O colóquio de Dakar, nos princípios dos anos 60, propunha ao historiador um reduzido número de objetos privilegiados: as migrações, o Estado e as trocas. Agora, abordamos um terreno muito mais amplo, onde quase nada escapa à avidez escrutadora do historiador: ecologia e demografia; técnicas e culturas materiais; economia e relações sociais; culturas, crenças e mentalidades; povoamento e práticas identitárias; articulação de dinâmicas durante muito tempo consideradas como exclusivas (a externa e a interna, o global e o local)…

Qual a escala a que convém tratar estes objetos? A, única, da África ou a, múltipla, das Áfricas? Diria as duas ao mesmo tempo, uma revelando-se mais pertinente do que a outra conforme as épocas. Se a problemática das "origens" que participa largamente nos processos identitários e privilegia por isso a unidade da "África negra" (Cheikh Anta Diop), aparece como uma problemática mais ideológica do que científica, pareceu-me apesar disso necessário (Capítulo I) enunciar as apostas e os termos dos debates africanos consagrados às "origens": origens e antiguidade das civilizações africanas, assim como origens africanas da humanidade e história positiva das primeiras civilizações conhecidas em África. A África é abordada em seguida (capítulos II, V, VII) por ela própria, nas suas realidades e não já nos mitos que suscitou, de uma maneira simultaneamente sintética e regional, global e local, em torno das questões e dos projetos principais que a historiografia pôs em evidência. "África Negra", esta África aparece largamente aberta à África mediterrânica e aos dois espaços marítimos - o Oceano Índico e o Oceano Atlântico - que foram e continuam a ser fronteiras muito permeáveis, portadoras de todas as potencialidades. A natureza, a importância e os efeitos destas interações nas fronteiras alimentam na historiografia assim como na memória dos africanos, um debate de uma gravidade tal que ocupam eles dois capítulos (III, IV), tão descritivos como polêmicos. Não haverá razão para surpresas perante as diferenças voluntárias e sensíveis entre as maneiras de expor e até dos tons adaptados nas diferentes partes do livro: "história - narrativa" e "história - problema", sobriedade desejada e busca do pormenor, dependem dos tempos e dos problemas em causa. É que, parece-me, no próprio momento em que nasceu o discurso histórico, o historiador nunca se satisfez a "contar o que fora" (Heródoto): quis também eu, explicitar aqui o que teria sido errado calar, não só os debates entre especialistas acrescentado pelo trabalho constante, sempre visível por mais longe que se volte atrás, da memória coletiva dos africanos sobre o seu próprio passado. Semelhante opção permite salientar aquilo que as desgraças do tempo presente mostram de maneira ampla, ou seja, que a relativa serenidade da história sábia não suprime, desgraçadamente, as derivações passionais das bricolagens e dos tráficos sobre a memória e o passado.

A síntese aqui apresentada foi um trabalho de grande fôlego. Falta-me agora satisfazer a agradável tarefa de agradecer a todos os que, desta ou daquela maneira, contribuíram para a sua elaboração e armação. Na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, lugar incomparável de trocas, de partilha e de debates, os investigadores que participavam no meu seminário puderam tomar conhecimento das partes desta obra e ofereceram-me o beneficio das suas críticas, sempre fecundas. Aprendi muito com numerosos colegas que estiveram associados de muito perto à maturação deste livro: especialistas da África, em particular Denise Robert (CNRS), Robert Vernet (Universidade de Niamey), Emile Mworoha (Universidade de Bujumbura e ACTT) e Michel Aghassian (EHESS); tal como as "diásporas africanas", mais particularmente Nilda Anglaril (Centro Argentino da Investigação Científica), Nina S. de Friedmann (Bogotá), Luz Maria Martinez Montiel (México) e Dieudonné Gnammankou (INALCO). A montagem deste volume, como a do volume II, deve muito a Sophie le Callennec cuja amizade soube ser, durante as diferentes etapas deste livro, vigilante e eficaz.

Elikia M'Bokolo

 

2 Responses to “a grande crise (3)”

  1. yngnrhswc Says:

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