Cume - Escalando Montanhas

9/12/2006

a grande crise (2)

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Identificou isso sim, a permanência de duas grandes concepções de História, rivais entre si pelos tempos a fora: (a) A primeira delas vinha dos gregos antigos (reflexo de uma remota influência hindu) que concebia a histórica como cíclica. Tudo o que aconteceu no passado voltaria necessariamente a acontecer – era o “mito de eterno retorno” dos filósofos pré-socráticos, de Pitágoras e seus seguidores, e que teve a adesão de Nietzsche. Concepção essa claramente identificada com o pensamento arcaico das antigas civilizações agrárias da Antigüidade. (b) A segunda delas, a qual ele se filiava, vinha da tradição judaica e zoroastriana, levada a diante pelo cristianismo, que concebia a história como “a realização imperiosa e progressiva, no estreito palco deste mundo, de um plano divino que nos é revelado neste lampejo momentâneo e fragmentário, mas que transcende nossas faculdades humanas de visão e compreensão em todas as dimensões”.

Mesmo depois de ele constatar o inevitável declínio das civilizações, ameaçadas pela conjugação da ação corrosiva do proletariado interno ou do proletariado externo (expressões que ele absorveu do marxismo), Toynbee não se associou à dramática visão de Spengler sobre o irreparável colapso final do Ocidente. Quanto à sua visão sobre o futuro da humanidade, ele pode ser considerado um dos tantos profetas da globalização atual por ter afirmado: “Creio na iminência de um mundo único, e creio que no século XXI a vida humana vai ser novamente uma unidade, em todos os aspectos e atividades. Creio que no campo da religião, o sectarismo vai ser subordinado ao ecumenismo; que no campo da política o nacionalismo vai ficar subordinado ao governo mundial; e que no campo do estudo dos assuntos humanos a especialização vai ser subordinada a uma visão abrangente”.

  • África Negra - História e Civilizações

Uma das razões pelas quais decidimos traduzir a História de África de Elikia M'Bokolo assenta na ausência de manuais fiáveis em português consagrados a um continente com o qual os portugueses mantêm, há mais de cinco séculos, relações senão privilegiadas, pelo menos intensas. O nosso paradoxo reside no fato de ser impossível estruturar a História de África sem recorrer aos milhares de documentos portugueses, concentrados em muitos arquivos, tanto portugueses como estrangeiros tal como somos obrigados a utilizar tanto diários de bordo como relatos de expedições, para estarmos em condições de organizar uma história tão longa e tão complexa. A História de África de Elikia M'Bokolo associa a tecnicidade da história dos europeus e dos americanos, à sensibilidade e à experiência africanas: esperamos por isso que ela despolete as investigações indispensáveis a uma análise mais rigorosa das estruturas africanas na sua muito longa duração. Se Hegel ainda não podia encarar a existência de uma lógica histórica entre os povos africanos, Elikia M'Bokolo dá a resposta africana ao filósofo alemão, provando de maneira sistemática a coerência da História de África, para lá dos etnicismos e dos regionalismos que a têm travado.

Acrescente-se uma observação técnica: fomos obrigadas a manter em francês muitos termos geográficos, assim como alguns etnônimos, por não dispormos de regras capazes de permitir a sua portugalização, sempre que esta podia ser útil, e às vezes mesmo indispensável. Se o Dicionário de José Pedro Machado nos foi, apesar das suas imensas lacunas, deveras útil, já o recentíssimo Dicionário da Academia, ou assim chamado, se revelou muito desapontador.

Isabel de Castro Henriques - Joana Pereira Leite - Abril de 2003

  • Não podia ser mais bem-vinda a tradução em língua portuguesa desta nova história da África negra.

Por este ensaio à disposição de leitores, que esperamos sejam numerosos, não só em Portugal, mas também no Brasil, e nos países africanos de língua portuguesa, estes, mergulhados durante demasiado tempo em cruéis e caras guerras civis, encontraram-se travados no seu desejo legítimo de se abrir, em particular intelectualmente, a estas outras Áfricas das quais, preço da história, se tinham encontrado mais ou menos largamente isoladas. O acesso deste novo público a esta historiografia pode ser um desafio que desejamos fecundos e salutares.

Porque em toda a parte, na própria África de ambos os lados do Sara, do Mediterrâneo, do Atlântico e do Oceano Índico, se pode perceber, mais do que o interesse pelo passado africano, uma autêntica necessidade de história africana. Não será pouco dizer que a África se mexe. Os sons, os gritos, as cores, as imagens que se fazem ouvir e ver em todas as partes do continente são os das sociedades empenhadas em tarefas gigantescas que longe de ser em primeiro lugar e apenas tarefas de destruição e de morte, são as de atualizações, de refundações, de contestações e de invenções. E, apesar das respostas necessárias que é necessário dar às urgências, começa-se muito bem a ver que aquilo que se aborda remete para interrogações, movimentos, aspirações e dinâmicas de longa, quando não até de muito longa duração, quer se trate de Estado, de nação, de fronteira, de trocas, de religião, de língua, de demografia, de migrações ou desta mesma identidade de África negra.

É por isso que, desde a sua concepção, na sua elaboração e na sua apresentação final, o que este livro quis e continua a querer, não é apenas oferecer fatos, dos quais se sabe ser primeiro trabalho dos historiadores construí-los: há cerca de meio século que os historiadores da África produzem continuamente estes fatos, de maneira a empurrar cada vez para mais longe os limites da dúvida, da ignorância e do desconhecimento. Por isso, numerosos debates de ontem deixaram hoje de ter sentido. Quem poderia ainda perguntar-se se a África tem uma história, se as sociedades africanas são portadoras e produtoras de história? Contudo tal não é suficiente. Continua a ser necessário dar a ler estes fatos em torno de interrogações e de hipóteses, ou seja, de problemáticas e de conceitos, que se oferecem à discussão e que convidam, quando não provocam, ao debate. Porque é sempre assim que se torna fecunda a produção do saber.

Encontrar-se-á neste livro a marca de um historiador por profissão e paixão: aberto a todas as outras ciências sociais; bem instalado no território sem fronteiras do historiador; conhecedor, por neles ter estado integrado, dos combates de ontem, de hoje e daqueles que se esboçam para amanhã; atento em designar os estaleiros que solicitam e esperam o trabalho de outros historiadores e de outros especialistas das ciências sociais.

Está assim lançado o apelo para que outros se reúnam a nós e assumam a transmissão nesta tarefa inesgotável.

A tradução do livro só foi possível graças à tenacidade e perseverança de duas colegas, Joana Pereira Leite (ISEG, Universidade Técnica de Lisboa) e Isabel de Castro Henriques (Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa), cuja amizade exigente se mostrou sempre constante. Tenho a grande alegria de saudá-las aqui. É também um testemunho de amizade e uma honra para mim que a tradução deste livro tenha sido realizada por Alfredo Margarido, com o talento literário que lhe conhecemos e reconhecemos, mas também com a visão crítica e a vigilância intelectual do especialista das ciências sociais e da África que ele é. Qualquer imperfeição, erro ou insuficiência que venham a subsistir neste livro é naturalmente da minha inteira responsabilidade.

Elikia M'Bokolo - Abril de 2003

  • Este volume I de África Negra, história e civilizações ocupa-se do período menos conhecido da história africana e um dos mais difíceis de abordar.

 

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