Cume – Escalando Montanhas

9/12/2006

a grande crise (1)

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A grande crise da civilização – Enquanto James Joyce (1881-1941) empreendia uma retirada intelectual para dentro do indivíduo, recriando o mito homérico de Odisseo na Dublin do seu tempo, embaralhando a narrativa e inventando o recurso do diálogo interior (Ulisses, 1922), Toynbee, com que compartilhou a época, fez um percurso contrário. Foi buscar na história das civilizações, na ascensão e queda delas, na dialética do desafio-resposta que elas encontravam para superar ou não os obstáculos, a possível explicação para a grande crise que o Ocidental estava passando. Sentiu-se, como ele confessou no seu depoimento “Minha visão da História”, como Tucídides quando viu os gregos marcharem para aquele sem fim de batalhas que arruinaram com a Hélade para sempre. Deixou-se possuir então pelo mesmo impulso do autor de História da Guerra do Peloponeso que também procurou encontrar na História as causas daquele incomensurável desastre. É, pois, em Agosto de 1914 que se encontra o marco referencial do seu A Study of History, pois foi naquela ocasião, ao receber as notícias da guerra declarada, que teve a sensação, idêntica a do historiador grego na época da guerra entre atenienses e espartanos, de ser testemunha da ruína dos grandes estados europeus do seu tempo e do inevitável recuo da civilização que representavam. Seguindo na situação de comparação entre ele e Tucidides, deduziu que a civilização ocidental e a helênica tinham não só pontos em comum como uma espécie de trajetória que as fizera cumprir um traçado de ascensão, apogeu e declínio, que apesar de distanciadas pelos séculos, as aproximavam no espaço e no tempo. Identificou no sentimento nacionalista um dos principais responsáveis pelos massacres de 1914-18, entendendo tal manifestação como resultante “do ácido fermento da democracia nos velhos odres do tribalismo”. Concluiu que não era possível compreender a história universal nos quadros estreitos das histórias dos estados-nacionais, entendidos por ele como membros de um corpo bem maior que se abrigava sob o guarda chuva das civilizações. Seguindo as pegadas de Hegel, era pelo todo (a história das civilizações) que se chegava às partes (a história das nações e dos povos).

  • A pouca porosidade da cultura

Além da guerra, somaram-se na composição dos Study as leituras dele da obra do professor Teggart, um antropólogo da Universidade da Califórnia, cujos estudos apontavam para as enormes diferenças de nível cultural entre várias sociedades existentes que convivem uma ao lado das outras sem que se mostrem permeáveis aos costumes das vizinhas, concluindo a lá Herder que a cultura é como a pele humana, é algo inamovível. O mesmo se daria com as civilizações, expressão usada para definir um estágio superior a que determinada cultura conseguiu atingir. Foi Toynbee quem democratizou a expressão “civilização” no século XX.

Durante muito tempo, especialmente na época do apogeu do colonialismo europeu, tal palavra fora usada pela maioria dos intelectuais de umas maneiras exclusivistas, aplicadas egoisticamente apenas à cultura ocidental, de preferência àquela existente na Europa Ocidental. No passado coube a Voltaire (no Essai sur les moeurs, “Ensaio sobre os costumes”, de 1756), quebrar tal exclusivismo, concedendo também aos chineses fazerem parte de uma refinada e elevada civilização. Pondo os olhos atentos no passado, Toynbee identificou a existência de 21 delas, encontrando ainda outras cinco que ele denominou de “fossilizadas”, isto é, culturas que ainda hoje, no nosso tempo, nele sobrevivem ainda que petrificadas. Portanto, para atingir-se o verdadeiro entendimento da história da humanidade devia-se se libertar da “ilusão egocêntrica”. Não se concentrando na crônica política dos estado-nações ou na descrição das poderosas forças produtivas, materiais, e seus conflitos de classe, mas sim na análise de coisas bem mais amplas, nas civilizações.

Não manifestou, por igual, nenhuma inclinação ou simpatia pelas projeções dos pensadores utópicos e seus sonhos de sociedades perfeitas virem a vingar no futuro. O projeto socialista para Toynbee nada mais era do que a intenção de reduzir a humanidade a uma colméia ou a um formigueiro. Fatalmente levaria a comunidades estagnadas no espaço e no tempo, limitando os homens a serem “insetos sociais”, condenados a habitarem “sociedades detidas”.

Foi Lewis Namier, um ilustre professor e historiador de Oxford, quem apresentou a obra de Oswald Spengler (1880-1936) a Toynbee. O livro do pensador alemão, aparecido em 1918, no final da Grande Guerra, causara furor junto a um publico traumatizado pelos efeitos dos massacres. A trágica visão histórica de Spengler, pela qual as culturas e civilizações, pelos tempos a fora, cumpriam um inevitável roteiro de ascensão, apogeu e declínio, desaparecendo na poeira, sintonizou-se com o clima pessimista reinante entre os europeus do após-guerra. Toynbee, entretanto fez reparos no que parecia ser um mecanismo inalterável no comportamento das civilizações, cujo desempenho lembrava as exigências da botânica (Spengler era um organicista, acreditava que as construções humanas, as civilizações, eram ditadas pelas mesmas regras fixas que a natureza fixara para as plantas).

Elas podiam decair sim, mas reagiam, em muitas ocasiões lançavam-se em recuos táticos para depois, recuperadas as suas forças, voltar novamente a ascender. Para entender o crescimento delas, Toynbee, ao analisar a gênese e a sobrevivência das civilizações, recorreu a uma sofisticação do pensamento darwinista, que mencionava a luta pela sobrevivência, incluindo nela o mecanismo da challenge and response, a incitação/resposta, como o verdadeiro motor do crescimento das civilizações.

Partindo da existência das mais variadas culturas (por volta de 1915, um estudioso anotou a existência de mais de 650 delas), o historiador concluiu que bem poucas delas alcançaram o patamar de uma civilização. Está implícito, assim, no seu raciocínio tributário de Spencer e de Darwin, a existência de uma “seleção natural dos mais aptos” fazendo com que de tantas culturas que já existiram ao longo da história, sobreviessem nos registros históricos apenas as 21 catalogadas por ele. As condições naturais – o clima e as dificuldades geográficas – determinam poderosamente as possibilidades de sucesso de uma cultura qualquer.

Nas situações em que a natureza lança um desafio praticamente insuperável, de calor ou de frio excessivo (como no caso do deserto de Saara e o de Gobi, ou nas imensidões geladas dos pólos), os povos que habitam aquelas imensidões desamparadas, como os beduínos e os esquimós, não têm nenhuma possibilidade de poderem superá-lo. A severidade das condições geoclimáticas impossibilita-os de transcenderem para um estágio sociocultural um pouco além da primitiva luta pela sobrevivência. Por conseguinte, não há civilização nos extremos. Ela só germina em situações intermediárias.

Toynbee evitou apoiar-se no racismo, tão em voga nos anos trinta do século XX, para explicar porque algumas culturas evoluem para uma civilização e outras não. Ao contrário, descartou-o. As ações de avanço ou de recuo ocorridas na crônica das civilizações decorriam da capacidade das elites e dos povos, qualquer que fosse a sua etnia, em saber enfrentar e superar os desafios e isso nada tinha a haver com fatores hereditários, genéticos ou raciais.

Identificou isso sim, a permanência de duas grandes concepções de História, rivais entre si pelos tempos a fora: (continuação na  segunda parte).

 

One Response to “a grande crise (1)”

  1. Pranav Says:

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