a farsa
Farsa da Esquerda, Maldita da Direita - Editado no Blog do Diego - por Glauco Fonseca - Lula, até que um dia, disse algo tão verdadeiro quanto confessional. Alguém com mais de 60 anos ainda ser de esquerda é tão anormal quanto alguém jovem optar pela direita. Foi mais ou menos isso. Um milagre, enfim, uma frase num evento tão importante quanto o aniversário de uma revista IstoÉ. Uma sentença inteirinha, quase uma idéia completa, soa como um poema aos ouvidos de tanta gente que, até agora, só tinha ouvido besteiras e chacinas da língua portuguesa. Uma manifestação assim tão filosófica merece ser discutida um pouco mais, sob a ótica não só de quem a proferiu, mas pelos aspectos psicológicos e históricos que aparecem, ainda que hipodérmicos. Nosso atual presidente da república aparenta ser algo tão genuíno e sincero quanto um produto Made in Malásia. Ao se posicionar mais chegado ao centro do que à esquerda, magoa profundamente aqueles que o levaram ao trono, que são de todas as idades, mas quase sempre de esquerda. O que diria Ernesto “el Chancho” Guevara de uma manifestação como esta, se milagrosamente estivesse ainda vivo (e, portanto velho)? Isto é o que menos importa, entretanto. O que eclode e reluz é o que acaba de ser declarado por Lula, confirmado por Chávez, assegurado por Fidel Castro e finalizado por Augusto Pinochet. Não há mais direita e esquerda neste planeta. Ponto final. Se Chávez, ao se reeleger, manifesta como meta manipular a constituição de modo a mantê-lo infinitamente no poder, pode ele ser considerado um líder de esquerda? Pode ele ser considerado um democrata? O que o difere de um Pinochet?
E o que separa Fidel de Augusto Pinochet? Ao ter praticamente ganho Cuba de presente, não sem antes prometer aos americanos patrocinadores restaurar a ordem constitucional tão logo estivesse findo o período de transição, Castro mentiu e acabou trazendo para si uma liderança não só eterna, mas com um viés monárquico nojento e indecente. A única diferença entre Castro e Pinochet, a única, é que um ainda está vivo.
Mas vejam só que interessante: no mesmo momento em que sucumbem os ditadores Fidel e Pinochet, reelegem-se Lula e Chávez! Apesar de parecerem “de esquerda”, os três líderes ainda vivos são tão diferentes quanto os países que lhes dão cidadania. O ditador Fidel Castro está morto na pessoa física, permanecendo apenas o fundo de comércio. Depois da catarse pela morte de ”El Comandante”, o que acontecerá com Cuba? Se forem convocadas eleições livres e gerais, isto será um golpe de esquerda ou de direita? Mas e se permanecer o príncipe-regente Raúl, teremos o quê? No caso de Pinochet, milhares de mortos pelo governo da direita. Nos anos de terror de Stálin, quantos milhões de mortos em nome da “revolução” da esquerda? Que droga é esta que ora chamamos de esquerda e ora chamamos de direita?
Dizer que se trata de pura retórica ou mero discurso é pouco. Argumentar que ambas as posições têm como simples objetivo a captura do poder, também é curial demais. Pelo menos depois do que aconteceu no século XX e no início do XXI. Mas dá para invadir a sensibilidade de uma rasa política globalizada e afirmar que, hoje, a esquerda de Fidel é muito parecida com a direita de Saddam Hussein. E que a esquerda na Venezuela de Chávez é cada vez mais similar à direita da Grande Jamahira Árabe Popular Socialista da Líbia, uma ditadura militar desde 1969, do grande Muammar al-Kadhafi.
O presidente Lula ainda aparenta ter mais inteligência emocional do que todos os malandros até agora citados. E por achar-se distante tanto dos modelitos de esquerda quanto de direita, acaba declarando-se mais “central”, mais centrado, mais equilibrado.
Resta saber, primeiro, se ele vai conseguir manter o equilíbrio que aparenta, mesmo com todas as falcatruas do seu PT, que é de esquerda, e de seus opositores, a maldita elite de direita.
Por uma manifestação assim tão sensível e verdadeira, aí vai meu primeiro elogio ao Lula. Não pensem que foi fácil.
Publicado em 14/12/2006

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