a crise da china
Como a crise da China afeta o Brasil – Se as previsões de desaceleração na economia dos EUA e da própria China se confirmarem, o crescimento brasileiro será ainda menor – Com Andrea Leal, Isabel Clemente, Maria Laura Neves e Murilo Ramos.
- SUSTO
Chineses acompanham a evolução das cotações na Bolsa de Xangai. Queda de 9% num único dia – No Brasil, ainda era noite da segunda-feira 26 quando o primeiro alarme soou. Turbulências começavam do outro lado do planeta, na Bolsa de Valores de Xangai, na China. Ela fechou em queda de 9%, a maior em dez anos e a quarta maior desde sua criação, em 1990. Ao longo do dia, os tremores se propagaram pelo mundo, de Tóquio a Londres, de Buenos Aires a Moscou. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 6,6%, a maior queda desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. A Bolsa de Nova York caiu 3,3%, a pior queda desde 2003. Depois da calmaria da quarta-feira, a onda de baixa recomeçou. Na sexta-feira, no encerramento dos negócios, ainda havia incerteza sobre a real extensão da crise e seus desdobramentos. Qual seria o efeito da crise na economia global e no Brasil? "É um momento delicado. Não está claro ainda aonde vamos parar", afirma Henrique Meirelles, presidente do Banco Central (BC). "Pode ser apenas um ajuste do mercado acionário, uma simples correção de preços, ou um reflexo de uma desaceleração mais profunda da economia mundial, de um ciclo recessivo", diz Carlos Langoni, ex-presidente do BC e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro. "Não acho que vai ser o fim do mundo, mas não me arrisco a fazer uma previsão para o curto prazo", afirma Armínio Fraga, antecessor de Meirelles na presidência do BC. Em comparação com o que aconteceu em outras crises financeiras, como as do México, da Ásia e da Rússia, nos anos 90, o minicrash ocorrido na semana passada parece um solavanco de menor importância – e, provavelmente, foi isso mesmo. Até agora, as perdas foram essencialmente de investidores privados. Não envolveram moratórias de países insolventes nem a falta de moeda forte para honrar compromissos internacionais. Aparentemente, hoje não há nenhum país importante em uma situação de encruzilhada financeira. O epicentro da crise foram as bolsas, não o câmbio. "Esse evento da China é diferente dos anteriores. Tailândia e México quebraram. Rússia declarou moratória. A China não vai quebrar", diz Fábio Barbosa, diretor financeiro da Vale do Rio Doce e secretário do Tesouro Nacional no governo FHC (veja o quadro abaixo). Felizmente, o Brasil também está hoje menos vulnerável a crises externas. Na quarta-feira, as reservas cambiais brasileiras ultrapassaram a marca dos US$ 100 bilhões, um recorde em toda a História. O saldo da balança comercial – a diferença entre exportações e importações – é tão expressivo que o Banco Central está comprando dólares no mercado para tentar segurar a cotação da moeda americana, em queda desde o fim de 2002. As reservas cambiais são um cacife poderoso, capaz de garantir a estabilidade econômica e a moeda nacional. Mas não é uma garantia absoluta. "Sem dúvida, isso ajuda a manter o equilíbrio das contas externas do país", diz Gustavo Franco, ex-presidente do BC e colunista de ÉPOCA. "Mas não vamos nos iludir. Quando eu estava no Banco Central, o Brasil tinha US$ 74 bilhões em caixa. Logo adiante veio uma tempestade."
Em momentos de incerteza, porém, há uma tendência natural ao conservadorismo entre os investidores, até que tudo fique mais claro. Provavelmente, os grandes projetos privados de investimento no Brasil, já aprovados e em fase de implementação, seguirão os cronogramas originais, talvez com ligeira desaceleração. Mas aqueles projetos que ainda estão em processo de avaliação e aprovação certamente terão de esperar um pouco mais. Nas bolsas, a tendência é os investidores externos deixarem o dinheiro longe de países emergentes como o Brasil. Só na última terça-feira, os estrangeiros sacaram US$ 220 milhões (R$ 462 milhões) da Bovespa.
- SINAIS
Imóveis à venda nos Estados Unidos. Indícios de desaceleração econômica – É preciso levar em conta também que Estados Unidos e China são dois gigantes econômicos globais e dois dos principais parceiros comerciais do Brasil, responsáveis por 22% de nossas exportações. Algum estrago, por menor que seja, deverá haver caso eles sofram uma desaceleração econômica. Com menos capital externo entrando no país e mais saque de investidores estrangeiros, a tendência é o dólar subir, ainda que só um pouco. "Mesmo que seja um mero ajuste nos mercados acionários, haverá redução do fluxo de capital de curto prazo para o Brasil. Isso pode até ajudar a corrigir a valorização do real. No final, pode ajudar também as exportações", diz Langoni.
A queda nas bolsas fez com que mais de US$ 1 trilhão aplicados em ações evaporassem da noite para o dia nos mercados globais. Nos Estados Unidos, foram US$ 630 bilhões só na terça-feira. Na China, US$ 140 bilhões. Aqui no Brasil, US$ 50 bilhões (R$ 105 bilhões). Não é pouca coisa. Segundo a consultoria McKinsey, uma das principais firmas internacionais de consultoria, existe hoje em todo o mundo cerca de US$ 140 trilhões em ativos financeiros, o equivalente a três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) anual de todos os países juntos.
Nas últimas semanas, muita gente já se mostrava preocupada com a euforia da Bolsa de Xangai. Ela subiu 130%, em média, no ano passado. Na segunda-feira, um dia antes do crash, o governo chinês elevou – pela quinta vez em oito meses – os depósitos que os bancos precisam fazer no banco central da China ao conceder empréstimos aos correntistas. O objetivo foi limitar o crédito e reduzir o superaquecimento da economia. Os juros também subiram, para estimular a poupança e desestimular o consumo. "Não há dúvida de que as autoridades chinesas estão levando a sério a questão do superaquecimento da economia", afirma Stephen Roach, economista-chefe do Morgan Stanley, um dos principais bancos de investimento americanos.
É consenso entre os analistas, no entanto, que o principal problema não está na China, mas nos Estados Unidos. A economia americana dá sinais de que está perdendo fôlego. "A China foi um pretexto. Foi algo importante para chamar a atenção. Mas ela não é tão integrada globalmente para ser a causa principal de todos os problemas", diz o economista Paulo Leme, diretor de mercados do Goldman Sachs, um dos principais bancos de investimento americanos. "O que há é uma preocupação com o ritmo de crescimento dos Estados Unidos." Na semana passada, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, Alan Greenspan, hoje um consultor privado, disse que já há cheiro de recessão no ar, depois de 63 meses de expansão econômica. Isso poderia ter conseqüências negativas para a economia mundial, em especial para o Brasil. "Quando a última recessão parece tão longe quanto agora, invariavelmente se desenvolvem as condições que vão forjar a próxima recessão – e nós já começamos a ver esse sinal", afirmou Greenspan. Seu sucessor na presidência do Fed, Ben Bernanke, discorda. "Os mercados parecem estar funcionando bem. Prevemos um crescimento moderado da economia americana nos próximos meses", afirmou em depoimento no Congresso americano. "Não há mudanças em nossas expectativas em relação ao desempenho da economia."
No Brasil, muitos analistas também duvidam da desaceleração da economia americana. "Quando Greenspan era presidente do Fed, tinha uma retórica cautelosa e conservadora, de conteúdo eloqüente", diz Gustavo Franco. "Agora, é preciso levar em conta que é mais fácil para um consultor fazer uma previsão pessimista. Quando ele erra, o problema é bem menor do que quando erra uma previsão otimista." O ex-presidente do Banco Central Francisco Gros, hoje à frente da Fosfértil, do setor de fertilizantes, é outro que está otimista. "Não vejo nenhuma mudança fundamental na economia global", afirma Gros. "Há tanto dinheiro disponível que, apesar do enxugamento provocado pela queda das bolsas, os investidores vão continuar demandando boas oportunidades de investimento – e o Brasil oferece boas alternativas."
De acordo com dados divulgados recentemente pelo Departamento de Comércio, porém, Greenspan pode estar com a razão. Houve queda em vários indicadores de atividade da economia americana. Mas previsões são previsões – feitas para ser desmentidas. E mesmo figuras respeitadas como Greenspan erram em suas apostas. Será ótimo, para todo mundo, se ele estiver errado. Se, porém, ele estiver certo, o impacto negativo no resto do mundo será inevitável. Os Estados Unidos e a China são interdependentes. A China depende das exportações para os Estados Unidos – estimadas em US$ 200 bilhões em 2006 – para manter seu ritmo atual de crescimento, na faixa de 10% ao ano. Os Estados Unidos dependem da China para vender os títulos do Tesouro, que financiam a dívida pública americana. Hoje, a China tem cerca de US$ 700 bilhões aplicados em papéis americanos, ou 70% de suas reservas cambiais. O que acontecer com um país afetará o outro – e o restante do mundo também. Ainda que a China, em vez de crescer 10%, cresça 8%. E ainda que os Estados Unidos, em vez de crescerem 3,4%, como em 2006, cresçam 2%. A realidade da economia global pode ser desdobrada em três camadas: todos dependem de todos, todos dependem dos Estados Unidos e os Estados Unidos dependem do enigma chinês.
- UMA CRISE DIFERENTE?
A desvalorização da bolsa chinesa na semana passada reacendeu o medo de uma nova crise financeira internacional. Para os investidores, os países emergentes são todos iguais. Sempre que um entra em crise, arrasta os outros. Abaixo, uma breve história das crises financeiras recentes.
- MÉXICO – DEZEMBRO DE 1994
Uma tumultuada campanha eleitoral, marcada pelo assassinato de um dos candidatos, Luis Donaldo Colosio (PRI), e por revoltas de camponeses de Chiapas, foi o estopim da crise. O peso, a moeda mexicana, era mantido num valor fixo que oscilava pouco com relação ao dólar, num limite chamado "banda". A moeda forte favorecia as importações e encarecia as exportações. O déficit nas contas externas era compensado com investimentos estrangeiros, que sumiram ao primeiro sinal de crise. Assustado com a crise no México, o capital especulativo fugiu de todos os países emergentes, iniciando a primeira crise da economia globalizada.
- TAILÂNDIA – JULHO DE 1997
Parte do grupo conhecido por "tigres asiáticos", a Tailândia tinha elevados índices de exportação. Cresceu 8% ao ano por uma década. Tinha uma dívida externa de US$ 90 bilhões. Depois de enfrentar desaceleração das exportações sem adotar medidas de maior rigor fiscal, sua dívida cresceu. O país gastou suas reservas para manter a moeda fixa e não suportou a pressão do mercado. Em julho de 1997, teve de deixar sua moeda, o baht, flutuar. Ela desvalorizou 20% num único dia. Em seguida, a crise atingiu a Bolsa de Hong Kong, espalhou-se pela Ásia e pelo resto do mundo.
- RÚSSIA – AGOSTO DE 1998
A economia russa entrou em colapso depois da crise asiática. O capital especulativo abandonou os mercados emergentes, o preço do petróleo caiu e derrubou o rublo, a moeda russa. As reservas do governo caíram. Com os encargos sociais e gastos militares herdados do regime socialista, faltou dinheiro para pagar salários de funcionários públicos e manter serviços básicos. Sem recursos, a Rússia desvalorizou a moeda e decretou moratória da dívida externa. Desmoralizado, o presidente Boris Ieltsin perdeu eleições parlamentares. A instabilidade se alastrou para as bolsas internacionais
- O EFEITO CHINA – Como a crise pode afetar nosso bolso
- AÇÕES
Ninguém sabe ainda a extensão da crise. Nem quanto tempo ela vai durar. Por isso, não convém sair das bolsas agora. Mas você deve ficar atento. Embora muitos analistas digam que o Brasil não deverá ser muito afetado, as bolsas podem se tornar imprevisíveis. Se a economia americana desacelerar, as vendas das empresas poderão diminuir. "Quem já tem aplicações em ações deve esperar para tirar", afirma Marcelo Giufrida, diretor da área de gestão de recursos do Banco BNP-Paribas no país. "Quem quer começar a aplicar, deve esperar."
- DÓLAR
Com o caixa do país recheado de dólares, dificilmente a moeda americana vai sofrer grandes oscilações. Nem mesmo o esforço do Banco Central, que já comprou bilhões de dólares para tentar deter a queda da moeda, teve grande impacto na cotação. "Mesmo que o dólar suba, não deve passar dos R$ 2,20", afirma o economista Alexandre Póvoa, da Modal Asset Management, empresa de gestão de recursos.
- DÍVIDAS
Em períodos de incerteza como o atual, os bancos tendem a ser mais conservadores na concessão de crédito. Isso pode encarecer os empréstimos. As taxas de juros no Brasil estão em queda e, ao que tudo indica, essa tendência deve continuar ou, talvez, se acentuar. No final, as duas coisas devem se compensar, provocando pouca alteração no cenário atual.
- INFLAÇÃO
Mesmo com uma possível desaceleração da economia mundial com impacto no Brasil, a inflação deve continuar sob controle. Os analistas esperam poucas emoções nessa área. "É muito provável que a inflação de 2007 fique abaixo da meta de 4%", diz Odair Abate, estrategista de investimentos da área de gestão de grandes fortunas do Banco Santander. Parece que, finalmente, o Brasil conseguiu conquistar a estabilidade econômica.
- RENDA FIXA
Pela primeira vez na História, o Brasil pode passar por uma crise internacional em situação privilegiada. Na semana passada, o nível de reservas do país atingiu o recorde de US$ 100 bilhões. Por isso, desta vez, mesmo que haja uma redução no apetite dos investidores estrangeiros pelos países emergentes, o Banco Central não precisará aumentar o juro para seduzi-los. O cenário de incerteza deverá aumentar a procura por aplicações conservadoras. Isso poderá até favorecer uma redução mais acelerada nos juros.
Março 6th, 2007 at 03:08
xangai