Cume - Escalando Montanhas

3/11/2006

a criação do mito (3)

Arquivado em: Sem Categoria — hilltop @ 02:55

(Terceira e última parte) 

Uma carta de Policarpo bispo de Esmirna (130 d.C.) já está bem próxima dos evangelhos em vários trechos mais ainda faz referência aos documentos acima, não aos evangelistas.

Há escritos de Papias da época de Policarpo que se perderam, mas são mencionados por Eusébio e estes começam a fazer referência aos evangelhos. Segundo Eusébio, Papias disse que certo João disse que Marcos tinha sido o intérprete de Pedro e registrou o que Pedro ainda se lembrava dos ensinamentos do Senhor, aos pedaços e sem ordem. Ou seja, ainda não era um evangelho narrativo.

Por volta de 140 d.C, o gnóstico Marcião usou trechos de uma versão prévia do que viria a ser o evangelho de Lucas. Sabemos disto porque Tertuliano condenou sua interpretação do texto anos mais tarde. A versão que Marcião usou era diferente da atual, o que mostra que os evangelhos passaram por várias revisões. E isto ocorreu provavelmente porque na época os evangelhos não passavam de textos soltos de vários autores e ninguém os considerava sagrados nem inalteráveis, apenas considerações pessoais sobre Jesus e seus ensinamentos.

Na verdade, este processo de revisão pode ser visto ao longo dos 30 anos que separam Marcos de João. Cada um é uma adaptação do anterior à realidade de sua época. Um exemplo é o progressivo envolvimento dos judeus na condenação de Jesus e a "desculpabilização" dos romanos.

Os evangelhos, aliás, nem tinham nomes. Justino, o Mártir, por volta de 150 d.C. ainda os chama apenas de "Memórias dos Apóstolos" e o que ele cita são apenas ensinamentos soltos. Tais trechos divergem dos evangelhos atuais e não há nada do evangelho de João.

A primeira menção que já foi encontrada aos 4 evangelistas é a de Ireneu, bispo de Lyons, por volta de 180 d.C., onde ele comenta que deveria haver 4 evangelhos porque havia 4 ventos e 4 cantos da Terra.

Finalmente, acredita-se que os Atos tenham sido escritos pela igreja de Roma em meados do segundo século para criar uma imagem mais favorável de Paulo, que na época era apontado pelos gnósticos como seu líder (por se basear apenas nas revelações recebidas diretamente de Deus e não através da Igreja, ou seja, do Jesus terreno e dos apóstolos). As epístolas, pelo contrário, mostram Paulo rejeitando a versão de Tiago e os outros, embora eles tivessem convivido com Jesus.

NOTAS:

 

(1) Os gregos (e também os europeus até os tempos de Copérnico e Galileu) acreditavam que a Terra era o centro do universo. Em volta dela havia esferas de cristal concêntricas, cada uma sustentando um dos 7 planetas conhecidos. Na esfera mais interior, a da Lua, ficavam os demônios, mensageiros entre os homens e os deuses, e além da sétima esfera ficavam os deuses. Para Paulo e seus correligionários, em vez dos deuses havia um único deus e os demônios eram forças do mal (em Efésios 06:12 eles estão nas regiões celestes; só mais tarde foram relegados às profundezas da terra; são eles os dominadores do mundo, não os humanos). Segundo apócrifos do fim do primeiro século, como a "Ascenção de Isaías", Jesus teria partido numa jornada através das esferas até chegar a mais interior, nascendo de uma mulher (assim como Attis nascera de Cibele e depois se sacrificara). Os demônios, sem perceber quem ele era, o teriam morto. No final do século I, nenhuma menção a um Jesus terreno. Nada de perdão dos pecados, nada de ensinamentos. Pilatos não o julgou, não houve Calvário. A missão desse Jesus, que tinha aparência humana, mas não era de carne e osso, era derrotar o anjo da morte e resgatar os justos. I Coríntios 02:08 fala novamente dos dominadores do mundo, não de Pilatos, por exemplo. Orígenes e Marcião também interpretam Paulo desta forma. Jesus desce então aos infernos (o Sheol) e ressuscita três dias depois. Retorna aos céus levando com ele as almas dos justos e, a partir desse dia, os justos que morressem iriam também para o céu. Este era o segredo escondido, no qual era preciso acreditar para se escapar do inferno. Jesus era o cordeiro imolado desde o início dos tempos (e não no ano 33).

(2) Ezequiel 26 diz que Yaveh deu a cidade de Tiro a Nabucodonosor para saquear e destruir. A cidade seria coberta pelo mar e nunca mais voltaria a existir. A história nos diz que Tiro foi sitiada por Nabucodonosor, mas que este não conseguiu tomá-la. A cidade foi destruída séculos mais tarde por Alexandre o Grande, mas recuperou-se e é hoje uma cidade moderna. E o mar não a cobriu. Ezequiel 29 diz que, como compensação pelo fracasso em Tiro, Yaveh lhe daria Egito e os países vizinhos, também para saquear e destruir. O Egito seria devastado para sempre e seus habitantes se dispersariam pelo mundo. Nada disto aconteceu.

(3) A estrela guia é um elemento comum nas histórias de heróis antigos e também há uma matança de inocentes na lenda de Moisés. Herodes matou vários de seus próprios parentes com medo que lhe tomassem o poder, o que pode ter inspirado os evangelistas, mas não há registro histórico de matança indiscriminada de crianças.

FONTES:

-Sobre a definição do cânon da Bíblia: http://www.infidels.org/library/modern/larry_taylor/canon.html

-Sobre o uso de passagens do Antigo Testamento: "Miracles and the book of Mormon"

http://www.bowness.demon.co.uk/mirc1.htm

-Sobre a influência de religiões antigas:

http://www.strbrasil.com/Atheos/jesus.htm

http://www.usinadeletras.com.br/ex. phtml?cod=2092&cat=Ensaios

-Sobre a ausência de menções a um Cristo histórico no primeiro século: "The Jesus Puzzle", por Earl Doherty

http://www.humanists.net/jesuspuzzle/home.htm

 

 

4 Responses to “a criação do mito (3)”

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