A Criação de Deus III
A Criação de Deus III
Terceira parte do artigo escrito pelo professor José Moreira da Silva.
No começo, o único bem precioso que o homem primitivo tinha era a vida. Era a única coisa que possuía. Tudo o mais era passageiro. Ele sabia que ia morrer, mas aceitava a morte de bom grado, contanto que tivesse uma vida abençoada. E para que sua vida fosse abençoada, recorria aos deuses, é claro. No começo, a vários deuses, e depois ao grande chefe. Ao Deus dos deuses. Lógico que até hoje temos religiosos politeístas. Que recorrem a deuses menores, ou santos, ou a aspectos do Deus maior. Mas todos são aspectos. No final, todos crêem que existe um maior que todos. Pois isso é baseado na sociedade em que vivem. Existem vários líderes, mas existe um presidente, ou chefe ou algo parecido que manda nos chefes menores. Humanos são primatas hierárquicos. Um único Deus não poderia explicar todos os fenômenos, daí todas as religiões terem demônios para explicar as coisas ruins, e daí também a idéia de um Grande Diabo. O chefão de todos os demônios. Pelo que eu saiba, nenhuma religião conseguiu escapar da criação desse ser. De algum modo, ele sempre existe.
Com o passar dos tempos, os seres humanos não se contentaram mais em simplesmente ter uma vida boa. Precisavam de algo mais. E também não suportavam a vida que levavam, pois a mesma sempre foi cheia de problemas. Tinham que defender seu conceito de Deus diante de tantas desventuras, daí o Diabo. Mas achavam que tinha que haver um plano de existência em que o Diabo não participasse, um plano perfeito, pois ninguém conseguia acreditar que essa nossa vida imperfeita fosse a única. O ser humano começou a imaginar como seria uma vida sem a necessidade da morte. A morte, a grande destruidora. A morte, que torna todos os esforços inúteis. A morte, que sempre interrompe os planos dos mais prudentes. A onipresente morte.
O ser humano tem uma imaginação estupenda. Quando concebe algo, tem o poder de criar as formas mais incríveis de realidade. E como a vaidade nos leva a nos agarrarmos a nossas idéias, e dado o fato de a ciência não existir num passado muito remoto, chegamos a acreditar veementemente em nossas idéias e imaginações. Não importando o quão sublimes ou ridículas elas sejam.
Do fato de não nos conformarmos com a morte, de desejarmos viver, não importa em que condições surgiram todas as idéias sobre vida depois da morte. Afinal, como justificar um Deus todo bondade, se não inventarmos uma realidade em que o mal não existe? E para que Deus seja bondoso, como queremos que seja, precisamos inventar um céu. O céu é aquilo que o mundo deveria ser segundo expectativas humanas. As escrituras judaicas exemplificam bem tanto a religião do medo como a religião da moral, pois contém ambos os fatores em seus dogmas. Deus está sempre ali tanto para punir como para recompensar, e é um moralista em todas as áreas da existência humana.

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