Cume - Escalando Montanhas

19/11/2006

a cor (2)

Arquivado em: Sem Categoria — hilltop @ 20:18

“Os números mostram que há uma tendência de melhora da desigualdade em longo prazo. Mas a discriminação racial está presente o tempo todo”, observa Solange.

Dados do IBGE/Pnad (clique para ver o mapa) indicam que as diferenças entre as raças não estão apenas na empregabilidade, mas na remuneração. Negros recebem salários mais baixos. Isso está claro na distribuição do rendimento. No Brasil, 66,6% das pessoas negras ou pardas compõem os 10% mais pobres. Quando se fala da fatia de 1% dos mais ricos do País, ela é composta por apenas 15,8% de pretos e pardos. Brancos também permanecem mais tempo nas salas de aula, são maioria esmagadora nos cursos superiores e representam pouco no total de analfabetos do Brasil.

“A diferença entre a renda dos negros e dos brancos é histórica. A mulher negra recebe menos da metade do salário da branca. Na comparação entre o homem branco e a mulher negra essa diferença pode chegar a 70%”, mostra levantamento feito por Gesner Oliveira, presidente do Instituto Tendências de Direito e Economia. Para o economista, a base do problema está na educação. “A maior contribuição para a renda do indivíduo está nos anos de escolaridade básica.”

As cotas para negros nas universidades, apesar de aos poucos servirem como uma ferramenta para diminuir as diferenças no ensino superior, ainda são um tema muito polêmico. Há quem defenda que essa seja também uma forma de preconceito. Outros acreditam que a falta de oportunidade na educação não atinge a negros e a pardos de forma discriminatória, mas sim aos pobres de uma forma geral. O problema é profundo. Não são poucos os casos de cotistas que tiveram de abandonar a universidade por falta de recurso financeiro. As diferenças, como lembra a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (entrevista abaixo), vêm de longe. O erro começou como foi feita a abolição da escravatura. Os negros ganharam a liberdade, mas continuaram sem ter direitos.

Ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Carlos Alberto Reis de Paula é negro. Lembra que sempre teve acesso à educação de qualidade, mas nem por isso escapou de várias situações de preconceito racial. Já no atual cargo, em um evento oficial promovido por um ministério, via uma funcionária de o cerimonial passar para lá e para cá atrás do ministro do TST. A tal moça perguntou a todos – brancos, é claro –, menos a ele onde estava o representante do tribunal. Em sua opinião, as cotas são necessárias. “Precisa haver uma política de universalização. Nela, os que são mais oprimidos e com menos recursos precisam de uma atenção especial. Não se trata de privilégios, mas de compensação.”

José Vicente, presidente da ONG Afrobras e reitor da UniPalmares, concorda com o ministro: “A educação, de qualidade, é a chave para a inserção”. Para o especialista, além das vagas para alunos negros, também é preciso que haja representatividade entre os que ensinam. Na Universidade de São Paulo, há cerca de 5.400 professores e, segundo José Vicente, apenas quatro são negros.

Na saúde, os contrastes também estão presentes. Recentemente, o ministro da Saúde, Agenor Álvares, reconheceu a presença do racismo e a desigualdade étnico-racial. Negros têm um atendimento pior que os brancos no sistema público, com diagnósticos incompletos e exames que deixam de ser feitos. Os atendentes do setor reclamaram, acharam o resultado injusto. O ministério propôs, a partir desse diagnóstico, ações como o treinamento dos profissionais e pesquisas junto aos movimentos negros que possam auxiliar na identificação de outros problemas.

O Atlas Racial Brasileiro de 2004 já mostrava um quadro depauperado. Os dados revelaram que a população negra brasileira tem mais dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Os brancos consultam-se mais vezes – 2,29 vezes por ano, ante 1,83 entre os negros. Entre as mulheres, mais diferenças. As brancas usam mais pílulas como contraceptivos, enquanto a laqueadura tem maior incidência entre as negras. Levantamento recente feito por pesquisadoras do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) apontou que 27,3% das mulheres brancas nunca fizeram um exame clínico de mama. O índice sobe para 44,5, no caso das negras.

Apesar de a situação ser mais alarmante no Brasil, nos Estados Unidos, mesmo com garantias dadas pelos Direitos Civis, a discriminação também existe e chega ao sistema financeiro. Negros, ao lado dos latinos, encontram barreiras na hora de tomar empréstimos, como apontou recente estudo divulgado pelo presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), Ben Bernanke. Ele admite que exista uma chance maior de esses dois grupos pagarem mais pelos recursos do que brancos. Bernanke prometeu um maior comprometimento da instituição no sentido de impedir a discriminação bancária.

Na cultura e na publicidade, no entanto, há menos sinais de desigualdade entre as raças do que se costuma ver em outros setores. Cobras & Lagartos, novela das 7 da TV Globo, teve como protagonista o casal de negros Thaís Araújo e Lázaro Ramos. Antes, a atriz já tinha sido protagonista em Da Cor do Pecado, na mesma emissora. Depois do sucesso do programa Cidade dos Homens, a tevê lança agora Antônia, que mostra a vida de quatro jovens negras da periferia de São Paulo. A Record, além do programa dominical apresentado por Netinho de Paula por quase cinco anos, investiu na série Turma do Gueto. A emissora também bancou um concurso feminino de beleza negra.

Esse movimento aconteceu quase ao mesmo tempo em que a indústria brasileira passou a investir mais nas particularidades da raça negra. O resultado é que a publicidade, embora aos poucos, vem deixando de ser tão branca. “Antes, o consumidor negro não existia para a publicidade. Mas as empresas começaram a acordar para essa característica. Quem não der importância aos negros nesse mundo vai cometer um grande erro”, opina Ana Paula Cortat, vice-presidente de Planejamento Estratégico da Leo Burnett. A agência colocou no ar durante três anos uma série de campanhas da Fiat sobre preconceito. Numa delas, o racismo foi abordado de forma contundente, sem esquecer o bom humor.

Recentemente, houve quem defendesse que a cor influencia na tolerância à falta de ética e à corrupção, segundo pesquisa de O Estado de S. Paulo/Ibope, publicada em 25 de setembro. Diz o texto: “Os que se autodeclaram brancos são mais implacáveis com a ética: 88% não votariam num corrupto”. E tem mais, segundo a reportagem. “Os que se autodeclaram pardos cobram menos e 85% não votariam em indiciados por corrupção; mas os que se autodeclaram pretos são menos rígidos com a ética: só 82% negam o voto a corruptos.”

Na segunda-feira 20 comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra. Para os que defendem ser esse um daqueles feriados inúteis, talvez os números de um país veladamente racista sirvam para marcar um início nas reflexões. Sem falar, é claro, o que ainda nem começou a ser discutido, como a inserção dos negros na política, a forma como são tratados pela polícia e pela Justiça. O preconceito é generalizado. No país dos desiguais, os pobres levam a pior. Se for pobre e negro, então…

Matilde Ribeiro ocupa a Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial. Para a ministra, que responde diretamente à Presidência da República, não há dúvidas de que vivemos em um país racista, no qual os negros pouco conseguiram avançar desde a Abolição, há mais de um século. “Nós, os negros, não somos encorajados a estar em lugares freqüentados pela elite branca”, alerta.

  • CartaCapital: Por que a discriminação racial é tão presente no Brasil?

Matilde Ribeiro: O principal elemento propulsor é que a Abolição há 118 anos não foi completa. Não houve uma ação administrativa e política que incluísse os negros no mercado de trabalho, que lhes proporcionasse moradia. Eles saíram da senzala com uma mão na frente e outra atrás, entregues à própria sorte. Depois de quatro séculos de escravidão, essa população passa a viver em uma situação de marginalização e isso gera um exército de excluídos. O escravo não virou cidadão. E o que contribuiu para isso foi a visão política de que o negro era um ser de menor valia.

  • CC: Os brasileiros, apesar da miscigenação, são racistas?

MR: Somos racistas, sim. Negros, indígenas, ciganos vivem em exclusão porque há uma ideologia que a sustenta. Quanto mais branco, melhor. O mais curioso é que o brasileiro branco afirma não ser racista.

  • CC: É possível comparar o preconceito racial do Brasil com outros países?

MR: Talvez com a África do Sul, onde os direitos dos negros são uma conquista recente. No Brasil, apesar de vivermos num chamado espírito de cordialidade, isso não quer dizer que não haja um veto. Os negros estão na universidade? Sim, mas são minoria. Também não os vemos nos aviões, nos ambientes de trabalho. Nós, os negros, não somos encorajados a estar em lugares freqüentados pela elite branca. É importante a existência de uma política pública para descortinar essa realidade.

  • CC: De que forma a secretaria pode ajudar a minimizar as diferenças raciais?

MR: Por meio de mecanismos que tornem as pessoas mais conscientes de seus direitos. É responsabilidade de o Estado brasileiro fazer valer a igualdade.

One Response to “a cor (2)”

  1. Ibrahim Says:

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