a coalizão
Editorial: A coalizão e a prova dos nove - Editado no JB Online - 25.11.06 - Caso siga adiante o acordo com o Palácio do Planalto para integrar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PMDB terá uma oportunidade de ouro para apagar a pecha que lhe imputaram. No que fizerem e disserem daqui para frente, pelo menos até que se consolide o que será de fato o segundo mandato, os peemedebistas mostrarão se os (maus) atributos continuarão a se justificar. De Lula, espera-se que consiga montar um ministério capaz de atender aos critérios mínimos de confiabilidade ética e técnica, a fim de dar qualidade, utilidade e rumo aos quatro anos futuros. Se tais papéis já seriam complexos para outros atores, o histórico dos protagonistas em questão não oferece margem para grandes otimismos. Do lado do governo, o risco é repetir os equívocos do primeiro mandato: na hora da composição ministerial, prevaleceu o critério da mera partilha de cargos, a mistura aleatória de partidos e políticos, a simples arrumação às demandas da "base". O Brasil assistiu às conseqüências e não gostou do que viu. Com a nova chance outorgada pela reeleição, Lula rendeu-se à evidência da necessidade de ter ao lado um partido forte e experiente - condição essencial para que, no Congresso, não fique exclusivamente nas mãos do baixíssimo clero partidário, combinado com um PT problemático e legendas pouco significativas da esquerda.
Do lado peemedebista, a tarefa agora é recompor as bases de um partido cindido em inúmeras facções, o que transformou o PMDB numa federação de interesses regionais e manteve o pragmatismo fisiológico como a sua razão de existência. Acrescente-se ainda uma cúpula conflagrada pela disputa tanto do controle do partido quanto do comando das negociações com o Planalto. Os peemedebistas terão de mostrar que o acordo selado entre Michel Temer e Lula os levará a acertar os ponteiros - não por conveniência mas por convicção.
São coisas do passado as lembranças do combativo partido que comandou o processo de redemocratização do país. Desde a fundação do então MDB, em 1966, às lutas protagonizadas por Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, o partido balizou-se pela defesa da democracia e da modernização do país. Boa parte da turma do PMDB atual, e nisto já vão duas décadas, só não segue o governo de plantão quando não tem outra escolha. E não tardam a causar problemas.
O acerto só será "histórico", como definiu o presidente Lula, se esses equívocos não se repetirem. Para tanto, e como prova da altivez doutrinária dos peemedebistas, apresentou-se uma "agenda mínima da coalizão": reformas política e tributária, crescimento econômico acima de 5%, consolidação das políticas de transferência de renda, renegociação das dívidas dos Estados, evolução dos gastos correntes em patamares inferiores ao PIB, fortalecimento da federação e criação de um conselho político de partidos para acompanhar as ações do governo.
Seria uma plataforma aceitável não padecesse de uma inesgotável falta de originalidade. Tão genérica e óbvia que mais parece resultar da pressa para fechar o negócio. Maus presságios. Há motivo para imaginar que o PMDB aderiu ao governo Lula para, em breve, cobrar a fatura - ministério para uns, postos de poder para outros. Mas será fácil saber se o acordo se dá ou não nestes termos. Cumprirá o governo tais compromissos? Se descumpridos, os peemedebistas abandonarão o barco? Eis a chance do partido: convencer o país de que pode ser levado a sério e que sabe trocar apoio por algo mais do que assento para ocupar e caneta para assinar o cheque.

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