Páginas na Internet convidam para o “sexo sem compromisso” e comunidades de sites de relacionamentos, como o Orkut, reúnem “adoradores” do ato sexual e discutem diversos temas, como melhor posição e aprimoramento do desempenho. Na programação das emissoras de televisão, o assunto invadiu as novelas e programas de auditório. As cenas mais picantes se livraram da censura e passaram a serem exibidas em horários mais flexíveis. Tanta liberdade sexual tem gerado, no entanto, uma polêmica: Estaria o sexo sendo banalizado?

Exemplos, como o exibicionismo sexual – que levam jovens a exporem seus parceiros em cenas de sexo divulgadas na Internet, são encarados como uma das conseqüências dessa popularização do sexo. Para alguns, o que antes era reservado, torna-se público e o que era íntimo, torna-se banal. Para a médica terapeuta e educadora sexual, Gilda Fucs, muito disso deve-se ao afrouxamento das premissas de caráter e moralidade na mente dos jovens. “As pessoas não pensam em sexualidade com seriedade. O sexo tem sido encarado de forma irresponsável e, por isso, tem se banalizado. Este tipo de comportamento em relação à atividade sexual, a prática do ato sem compromisso, tem contribuído para uma alteração de valores que tem levado o sexo, até mesmo, para a esfera da criminalidade”, considerou.

De acordo com Fucs, comportamentos violentos com relação à atividade sexual, como estupro, são – em alguns casos – conseqüências de uma forma inadequada de iniciação sexual. “Muitas vezes o jovem recebe as primeiras informações relacionadas a sexo de modo inadequado e segue com informações deturpadas a respeito deste assunto. O estímulo precoce é também um fator que contribui para a prática desrespeitosa da atividade sexual”, afirmou.
A falta de estrutura familiar é outro fator que, conforme a terapeuta, contribui para as alterações dos valores sexuais entre os indivíduos. “Uma má formação moral e ética favorece, sem dúvida, a banalização das relações sociais. A desestruturação familiar contribui para isso e, sendo assim, preceitos educacionais, religiosos e éticos, acabam caindo por terra”.
O tratamento da abordagem sexual em novelas, programas de auditório e outras programações existentes nos meios de comunicação também são encaradas por Fucs como contribuinte para as alterações negativas no que diz respeito à sexualidade dos jovens. “Seria positivo se essas programações tivessem cunho educativo, porém não é isto o que acontece. O sexo, muitas vezes, é tratado na TV de maneira solta, sem um contexto que o justifique, sem um acompanhamento e o resultado disso pode ser o comprometimento moral. Isso porque, o estímulo e o próprio instinto relacionado ao sexo é trabalhado de maneira banalizada”, analisou.

A preocupação é que o problema se multiplique nas próximas gerações. “Se o sexo continuar a ser tratado desse modo, as próximas gerações terão uma percepção de sexo tão ou mais deturpada quanto a geração atual. É preciso fazer com que as pessoas voltem a tratar o sexo de maneira responsável, de maneira respeitosa à sua própria sexualidade. As pessoas não pensam com seriedade quanto ao assunto”, completou.
Sexo agora é parte da sociabilidade
Por outro lado, o sociólogo Gey Espinheira, acredita que mudanças são naturais e é preciso compreender que as novas gerações têm um modo diferente de encarar o sexo e isso deve ser respeitado. “Sexo é um dos sentidos mais expressivos da vida. Na moral tradicional o sexo deveria ficar restrito à reprodução, o que não é o caso na sociedade contemporânea em que o sexo é parte da sociabilidade. Sexo, portanto, é uma expectativa de encontro e de realização de relações entre pessoas, não se restringindo, jamais, ao casamento”, disse.
Para ele, a família não se insere nesse contexto. “A família deve compreender que sexo não é “família”, mas liberdade individual. Estamos em uma época em que cada pessoa é responsável por si mesma, e sexo é uma relação absolutamente individual, entre prazer e dever, satisfação e ônus. A família não deve se intrometer na vida sexual das pessoas”, considerou.
O exibicionismo na Internet, porém, é considerado por Espinheira fruto de mentes maldosas e não da liberdade adquirida com relação ao tema. “O problema não é a Internet. Os (ou as) que gostam de se exibir ou aqueles que se comprazem em exibir outras figuras são pessoas que não se bastam e que vivem da miséria dos outros. Não é a Internet, mas as mentes poluídas dos impotentes ou das pessoas ruins e cruéis”, pontuou.
Na avaliação do sociólogo, a mudança de comportamento sexual das pessoas nada mais é que a superação de barreiras, antes impostas pela sociedade e pelo núcleo familiar. O sexo, antes pecado é agora, simplesmente, encarado como prazer. “Antes, imperava a hipocrisia e o autoritarismo, em que o indivíduo não era levado em conta. Valia a família, com todas as suas mazelas e isso podia se chamar “respeito”, mas era, na verdade uma forma de camuflar o drama humano. Somos hoje mais livres e libertos e sexo para nós deixa de ser pecado para ser prazer”, definiu.