Depois da inflação (e antes do desenvolvimento) - O presidente Lula voltou à manchete, em entrevista exclusiva (O Globo), para dizer, com sabor de novidade, tudo que repete sem se fazer acreditar. Nem ele acredita. Diante da velha opção, dá por conquistada a vitória sobre a inflação e anuncia a volta do desenvolvimento. O otimismo faz de Lula a reencarnação de Pangloss, à brasileira (com farofa e azeitona), e não pela mão de Voltaire.
Pangloss achava que tudo ia bem, cada vez melhor, da melhor maneira possível, mesmo quando não parecia. Só não era brasileiro. A inflação já deu eleitoralmente o que tinha para dar. Agora é o desenvolvimento que enche urna. Não é mais a questão relativa ao número de mandatos, também resolvida, que move o presidente. A eleição está longe e tudo se resume em ganhar tempo sem compromisso. Quanto mais perto da eleição, mais o desenvolvimento sobe às cabeças.
Com tempo suficiente, Lula lançou o neo-otimismo e se esconde atrás da imagem da ministra Dilma Roussef, nomeada por ele sombra oficial do presidente. Ela é a candidata para ser apedrejada, ele o eleitor oculto, mas só até abrir-se a temporada eleitoral em 2010.
Para não variar, desta vez os brasileiros desfrutarão de "um Natal nunca antes visto neste país", por óbvia benevolência de um presidente também nunca visto antes neste país, e certamente sem similar nacional no futuro previsível. O homem está com a corda toda: "tínhamos de aproveitar o momento" (a credibilidade de quem tinha acabado de sair das urnas com a faixa de vencedor), para "dar uma chance ao Brasil". O presidente se referiu, como um sucesso, ao choque que deu mais nos brasileiros do que no Brasil. Choque de estupefação. Tudo ao contrário do que vinha propondo desde os tempos sindicais. Faltou-lhe, no entanto, desde o primeiro momento, uma oposição. A que saiu das urnas, em frangalhos, é incapaz de pedir uma solução clínica (sem precisar ser cirúrgica). "Vamos procurar — promete Lula para 2008 — outros assuntos para discutir". Não mais vamos falar, por exemplo, em inflação. Uma pena, se não se tratar mais mensalão e caixa 2, da preferência nacional.
Uma pena que Lula não usasse suspensórios na entrevista. Também cairia bem um charuto de capitalista de caricatura ao dizer: "temos $175 bilhões de dólares em reservas", com a mesma sem cerimônia com que não abre mão da CPMF. Não tem noção de risco. Reserva é reserva, mas não para ser usada em outra coisa. Perdeu, mas ainda está em tempo, o presidente aparecer na indumentária completa de Papai Noel para proclamar: "Vamos ter um Natal dos melhores em toda a História. Uma camada imensa de seres humanos marginalizados está entrando na sociedade que compra." Com franqueza, presidente, se alguém compra é, principalmente, porque alguém vende. O mercado consumidor é que sustenta o mercado produtor (não os governos). De olho no infinito, Lula se lembrou dos pobres do mundo inteiro ao localizar, entrando no consumo, os novos consumidores brasileiros, num sucesso de "causar inveja à China". Já não é uma ordem de grandeza, mas mania disso. É inegável, Lula ganhou nova dimensão na entrevista ao Globo. Está cada vez mais parecido com Pangloss. Só lhe falta um Voltaire para consagrá-lo como otimista incurável: "Não existe limitação para o crescimento bater com a cabeça no teto". Poderia ter dito: o céu é o limite. Mas não lhe ocorreu senão reforçar o panglossismo assumido: "Não existe gargalo na infra-estrutura".
Na versão Papai Noel, o presidente se refere a "sistema elétrico, muito mais preparado do que em qualquer outro momento. Estamos interligando todo o sistema". Nunca Papai Noel foi presidente dos brasileiros senão agora: "fico com inveja do salário da iniciativa privada". E vice-versa, presidente, mas esteja certo de que os empregados têm inveja da remuneração dos funcionários públicos. E, por último, para deixar claro que estamos de volta à opção entre inflação e desenvolvimento, Lula exagera: o segundo mandato fica todo para o desenvolvimento. O primeiro se sacrificou no combate à inflação. Não há almoço de graça, pensa Lula, e conclui, logo não pode haver desenvolvimento sem gasto. Se faltar recurso, apela-se para mais imposto. Não se trata de nomear, diz o presidente, guardando a caneta, mas é impossível melhorar a saúde sem contratarem médicos e garantir educação sem nomear professores. Não havendo médicos disponíveis nem professores sobrando, nomeia-se gente do PT. Não é a mesma coisa, mas dá para o gasto.
O Lula mais discreto, para uso de poucos, considera complicado extinguir o imposto sindical, desde que chegou ao poder. Antes era diferente. Sustentava uma "briga histórica" contra desconto obrigatório de um dia de salário por ano, na folha de salários, quando estava na oposição. "Faz parte da minha matriz como sindicalista". Faz não, presidente. Fazia. De dentro do governo, percebeu que milhares de sindicatos não têm condições de sobreviver sem o desconto compulsório. Ficou complicado, em sua opinião, "tirar imposto sindical dos trabalhadores e não tirar dos empresários". Ficou enigmático. Lula tem mais dois anos para "encher lingüiça" ou desistir de ficar de fora. E mais um ano, o último, para o que for possível, se tudo continuar como está. A não ser que assuma a candidatura ao terceiro mandato antes que alguém, do seu lado ou do lado oposto, cresça e apareça nas pesquisas como favorito à vaga presidencial. Miguel Valadares in ON Opinião e Notícia 28.11.07.
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