chore e comemore
Chore e comemore - E por falar em independência, eu quero a minha. Assim como milhões de brasileiros e brasileiras, eu só a verei no dia em que a geração de meus filhos e netos tiver uma vida digna, coisa que gente de minha geração não tem. Vai morrer sem entender a beleza do nascimento e do pôr do sol. O consolo é que temos consciência da necessidade de darmos o grito, não de independência, que isso é lá mera utopia, mas de protesto contra a corrupção, a imoralidade, o desdém, a injustiça social e a falta de uma política que gere emprego e renda.
Raul Seixas tinha razão: a solução é alugar o Brasil. Talvez nossos inquilinos tivessem a sensibilidade maior de compreender as agruras da população. Comemorar o quê, pois? O gesto simbólico do Dom Pedro I às margens do rio Ipiranga? Poderíamos evitar mais um feriado e gastos excessivos com uma festa sem sentido prático. Estaremos livres quando tivermos altivez. Estaremos leves e soltos quando pudermos vislumbrar um futuro menos dolorido e mais promissor.
Há um exército de delinqüentes em potencial nas nossas esquinas. São crianças de zero a 16 anos jogadas sob as marquises das grandes cidades. Elas se proliferam desmedidamente. Sabem quais são suas perspectivas? Nenhuma. Fecham-se os olhos para essa cruel realidade. A propaganda oficial busca combater a prostituição infantil, mas não oferece alternativas para os meninos e meninas que não têm outra opção exceto usar o próprio corpo para obter o pão e o crack (ou a cola) de todos os dias.
No campo, a prometida reforma agrária transformou-se numa piada de mau gosto. Inventou-se uma explosiva arma de exploração fácil da miséria e deram-lhe o nome de Bolsa-Família. Trata-se de um instrumento eleitoreiro de efeito imediato. É tão eficiente que deve ser agora ampliado. Ora, no próximo ano tem eleição. O Bolsa-Família é um remédio fantástico para frear a formação de mão-de-obra, sobretudo no interior e estimular a gravidez. Quanto mais filhos, maior o valor do prêmio. Não há programa de planejamento familiar que dê certo. Aliás, faz-se um planejamento familiar ao contrário. Parir é bom e faz bem ao bolso.
As grandes capitais vivem um caos. Corre-se da Polícia e da bandidagem. Tanto faz. Você pode ser contemplado com a ação (desastrosa) de um e de outro. A periferia está estufada de casebres. Não há saneamento básico. Não há água tratada muitas vezes. O ensino público é inqualificável. A estrutura da saúde, de tão precária e desumana, para alguns infortunados, pode ser um convite à morte. Mas vamos comemorar o Sete de Setembro. Vamos comemorar o Dia da Independência. Um pouco de ilusão e de fugaz senso de nacionalismo pode servir de alimento para os mais desavisados. Para mim, não. Prefiro o Grito dos Excluídos, mas sem politicagem no meio. Por Jânio Lopo in A Tribuna da Bahia em 08.09.07







