O PT e a visão paranóica da mídia - Não é de hoje que Lula e PT mantêm relações esquizofrênicas com a mídia. Ambos lhe devem a projeção que têm. São frutos da liberdade de imprensa. Sem a “mídia burguesa” e “privada”, que tanto abominam, não teriam ascendido ao patamar em que estão. Se, ao tempo em que Lula projetou-se como líder sindical, nos anos 80, vigesse o modelo de mídia que o PT proclama ideal – a estatal – a sociedade brasileira sequer teria tomado conhecimento da existência daquele sindicalismo que emergia no ABC paulista. Se dependesse da boa vontade de quem geria o Estado brasileiro naquela oportunidade – os militares -, Lula jamais sairia do anonimato. Quem o fez conhecido, vocalizando sua luta e de seus correligionários, foi exatamente a mídia burguesa e privada – a mesma que o PT, hoje no poder, quer ver pelas costas. Foi essa mídia que, com todos os seus múltiplos defeitos e fragilidades, enfrentou a censura, denunciou torturas e mortes nos subterrâneos do regime militar e permitiu que a sociedade brasileira não sucumbisse inteiramente ao arbítrio. Foi pelas frestas que conseguiu manterem abertas que novidades como Lula e PT vieram à tona, se estabeleceram e chegaram ao poder máximo do país. Isso não é juízo de valor – é História. Mas a Executiva do PT reuniu-se esta semana e, no pleno exercício de sua amnésia política, desancou a “mídia privada”. Disse que é “instrumento e Estado-Maior” de uma campanha da “direita” para desestabilizar o governo Lula. Campanha golpista, claro. E conclamou a militância a reagir a essa “nova ofensiva”.
Manifesto e respectiva terminologia não resistem a uma depuração ginasiana. Antes de qualquer coisa, o partido insiste no truque retórico – e intelectualmente desonesto - de que o mundo atual se divide entre direita e esquerda. E o que é pior: que o governo Lula estaria à esquerda. A afirmação é risível. Basta conferir alianças, equipe e políticas econômica e monetária em curso - e, acima de tudo, afirmações recentes do próprio presidente da República. Em diversas oportunidades, Lula afirmou que “jamais” foi de esquerda. Chegou uma vez a gracejar: “Não sou de esquerda; sou torneiro-mecânico”. Numa solenidade, em dezembro passado, disse que esquerda e maturidade não combinam. “““ “A frase literal é:” Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema”. Considerou isso – a direitização do esquerdista - fator de "evolução da espécie humana”, colocando compulsoriamente fora desse processo, entre outros, macróbios respeitabilíssimos - e confessadamente comunas - como Oscar Niemeyer (99 anos) e José Saramago (85 anos). Portanto, soa ridículo, num governo que tem em sua base de apoio políticos de todos os naipes, da esquerda à direita, fisiológicos e ideológicos, falar em “conspiração da direita”.
Troque-se a expressão direita por “esquerda” ou “subversivo” e compare-se o texto da resolução com as ordens do dia dos tempos do regime militar: é a mesma retórica, a mesma indigência mental e estilística. A caça transmutou-se em caçador. A resolução da Executiva mostra que o partido enxerga o desempenho do governo Lula por um viés exitoso e cor-de-rosa, que não coincide neste momento com o de parcela expressiva da sociedade brasileira. Fala em “sólido apoio popular” ao governo, contra o qual “a oposição recorre à manipulação e à mentira” para desgastá-lo. Vê nas vaias a Lula, na abertura dos jogos Pan-americanos, não uma circunstância trivial (e quase inevitável) da vida pública, mas “uma subida de tom da oposição”, tendo em vista “tanto as eleições de 2008 quanto as de 2010”. O apagão aéreo é visto como algo em que o governo deve figurar como vítima – e não como responsável. A culpa, se há, cabe à mídia, que teve a ousadia de registrar os contratempos exibidos pelo setor – entre os quais, os dois maiores desastres aéreos da história da aviação civil brasileira.
Já a crise do mensalão – aquela que o procurador-geral da República, em notícia crime ao Supremo Tribunal Federal, considerou fruto da ação de uma “organização criminosa”, chefiada pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu – o PT a atribui a “ataques da oposição de direita”. O hoje ministro Roberto Mangabeira Unger escreveu que se tratava do maior escândalo da história republicana brasileira – e pediu o impeachment do presidente Lula. Por muito (mas muito mesmo) menos, o PT ocupou os espaços da mídia privada e burguesa nos anos 90 e levou Fernando Collor ao impeachment. No curso dos governos FHC, fez campanha pela deposição do presidente (“Fora FHC”), infernizou a vida de diversos de seus ministros e veiculou na mídia privada inúmeros pedidos de CPI – uns procedentes, outros não. O que importa é que, naquela ocasião, o partido via na mídia uma aliada e proclamava seu comportamento como patriótico. Hoje, diante de ações em tudo análogas, por parte de seus opositores, fala em conspiração.
A imprensa brasileira está longe da perfeição. Carece mesmo de exercícios mais constantes e consistentes de autocrítica. Reflete as fragilidades da sociedade que vocaliza e vive a crise de transição que o advento de novas tecnologias da informação lhe impôs. Daí, porém, a ser “Estado-Maior” de uma “ofensiva da direita” vai uma distância maior que a que separa os redatores do manifesto da realidade. A mídia brasileira não é homogênea. É plural. Nela figuram, nos seus extremos, antigovernistas e governistas. Padecem da mesma patologia, mas estão longe de predominar. A maioria acompanha perplexa o apocalipse em gotas, que é a realidade contemporânea de nosso país e de nosso planeta. Há limitações, má fé e até idealismo. Conspiração, porém, não. Seria necessária uma competência que não temos. Nem nós, nem o país. Felizmente. Ruy Fabiano é jornalista (Postado no Blog do Noblat em 04.08.07 - Globo Online).