a transparência
O que a transparência exibe - Editorial de O estado de São Paulo - Postado no Blog do Noblat - 29.05.07 - O que mais chamou a atenção quando a revista Veja informou que o lobista de uma empreiteira pagava aluguel para uma inquilina com quem o presidente do Senado, Renan Calheiros, teve uma filha e uma pensão para a criança, além de manter à disposição dele um flat num hotel de Brasília, foi algo que por si só fala volumes: ninguém se surpreendeu com a notícia. A reação praticamente unânime de todos quantos têm familiaridade com o currículo do presidente do Senado - agora enriquecido pelas revelações de sua diligente atuação em favor do afamado Zuleido Veras, da Construtora Gautama, o principal atingido pela Operação Navalha como fraudador de obras e pagador de propinas às mancheias a políticos e agentes públicos em geral - foi outra: a constatação de quanto tempo levou até uma denúncia como aquela explodir na face de um dos mais desenvoltos integrantes da patota collorida no sofrido Estado de Alagoas. Numa passagem da nota com que reagiu à reportagem, recebida com manifestas reservas até por seus correligionários - a ponto de o terem aconselhado no fim da semana a não mentir na defesa que ficara de apresentar ontem da tribuna do Senado -, Calheiros faz praça da “absoluta transparência” de suas atividades políticas. Absoluta ou não, o que a transparência exibe com maior nitidez é a sua promiscuidade com figuras das quais governantes, parlamentares e funcionários zelosos de sua idoneidade e respeitadores das fronteiras entre o público e o privado tratam de guardar prudente distância. Tome-se o caso do relacionamento do titular do Congresso - e terceiro nome na linha de sucessão do presidente da República - com o lobista Cláudio Gontijo, da Construtora Mendes Júnior. Por mais que não se deva, a priori, culpar quem quer que seja por associação, ao contrário do que recomenda o ditado do “dize-me com quem andas”, eis um tipo de vínculo que caminha necessariamente em terreno minado por clamorosos conflitos de interesses.
Apenas para raciocinar, admita-se - na contramão de todos os indícios plausíveis - que Calheiros tenha dito a verdade quando assegurou que “meus compromissos sempre foram honrados com meus próprios recursos”. Admita-se ainda que, apenas por discrição num caso circunscrito à sua “mais íntima privacidade”, ele tenha recorrido durante três anos a um intermediário para fazer os pagamentos mencionados na reportagem da Veja. O senso comum elementar impõe a pergunta: mas por que exatamente um lobista, ainda mais de uma grande empreiteira? Aos 51 anos, não teria o parlamentar do sociável PMDB um amigo de confiança exercendo qualquer outra atividade que não despertasse suspeita? A indagação parece responder-se por si mesma quando se lança luz sobre outra figura das relações do senador, que adquiriu, pelas piores razões, súbita notoriedade: o empreiteiro Zuleido. Calheiros admite conhecê-lo há 20 anos, sem saber de nada que o desabonasse. Vai ver foi por isso que, entre dezembro de 2005 e junho de 2006, ele intercedeu junto ao presidente Lula para que liberasse verbas destinadas a uma obra da Gautama em Alagoas. (Zuleido esteve pelo menos uma vez no Planalto, em 2004, para um encontro com o então ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Jaques Wagner, hoje governador da Bahia. Não consta que tenha sido recebido pelo presidente.) Calheiros atribui o seu envolvimento a pedido de governadores da região. Mas o seu irmão deputado, Olavo Calheiros, apurou a Polícia Federal, deu uma força para a Gautama no Orçamento da União. De todo modo, o que se quer ressaltar - e de que os irmãos Calheiros parecem exemplos de livro de texto - é a forma como a corrupção se estrutura a partir de intricadas redes de relacionamento pessoal, necessárias ao sucesso de cada um no velho “Brasil cordial” de que falava Sérgio Buarque de Holanda. Essas malhas formam o resistente tecido da promiscuidade no País. A trama não só suporta as investidas de corruptores e corruptos contra o erário, como também recobre os seus esquemas de proteção mútua - das resistências à implantação de mecanismos institucionais capazes de tapar os múltiplos ralos por onde escoa o dinheiro público, aos estratagemas que fazem da impunidade uma norma que se perpetua, operações depois de operações da Polícia Federal.

Quaresma realizadas nesta semana e causou consternação entre ambientalistas, pacifistas e defensores da união entre as várias igrejas cristãs. Conhecido por suas acusações de que os muçulmanos estariam invadindo a Europa, Biffi citou o filósofo russo Vladimir Solovyov (1853-1900) para afirmar que o anticristo está vivo. "O anticristo pode se apresentar ou se esconder atrás de um pacifista, um ecologista ou um ecumênico", declarou o cardeal. "(Ele) convocará um conselho ecumênico e buscará o consenso de todas as igrejas cristãs." Ainda citando o filósofo russo, o cardeal disse que a multidão poderá seguir o anticristo, mas, perseguidos, pequenos grupos de cristãos, ortodoxos e protestantes lutarão e responderão que ele dá tudo, menos o mais importante: Jesus Cristo.


ganha o espaço da música erudita, da música popular, do teatro de texto ou de criação coletiva, das congadas e do balé. Gosto é gosto, e a política cultural não pode ter a pretensão de incentivar o bom gosto definido pela "elite branca" da academia ou dos museus. Ou pelos saudosistas do folclore e da arte regional. A política cultural deve apenas abrir espaço para todas as formas de arte que precisam de apoio -porque não dão lucro, porque não têm cacife para publicidade ou porque não conseguem furar a barreira da moda, o gosto da maioria. Se fast food fosse uma forma de arte e a moda fosse o pão com manteiga, a política cultural deveria dar incentivo fiscal para o café aguado em copo de papel da Starbucks. Se não existisse legenda e o filme americano não fosse o gosto da maioria, a Lei Rouanet deveria financiar as legendas. Há duas semanas, São Paulo passou a noite acordada na Virada Cultural promovida pela Prefeitura de São Paulo. Piano e muitos pianistas na praça Dom José Gaspar. Balé clássico e contemporâneo no vale do Anhangabaú. Música jovem, com luz estroboscópica no centro velho. Malabaristas no prédio da Light. E uma fila de dois quilômetros para entrar no Teatro Municipal. No final de semana passado, o governo do Estado, com as prefeituras e o Sesc, fez uma virada em dez cidades do interior. Que ouviram a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), Beth Carvalho, o violonista Yamandu, o teatro Mágico, Arnaldo Antunes, o balé de São José. Foram 300 espetáculos. Teatros municipais ficaram cheios, as praças ficaram apinhadas de gente. Duzentas mil pessoas passaram a noite acordadas e continuaram na rua até as 18h de domingo. Tomaram posse da cidade e viram ou ouviram o que não costumam ver ou ouvir. Centenas de artistas viajaram de cá para lá e de lá para cá, exibindo-se para novas platéias. O centro foi para a periferia; a periferia, para o centro; a capital, para o interior; o erudito, para a rua; o popular, para o teatro municipal. Fim de semana de arte, uma forma nova de ler o mundo, a vizinhança, as ansiedades e os desejos que nos movem durante a semana. Fim de semana civilizado, onde todos se encontram na rua, sem medo, andando para lá e para cá, como nos quadros e fotos de cidades no início do século passado, quando havia poucos carros, as ruas pertenciam às pessoas e os crimes eram passionais. Civilizado pelo clima de confiança, não era necessário fazer fila no caixa. Um prazer desconhecido para os cidadãos motorizados em carros de vidro fechado, modernos e apavorados. Uma oportunidade para centenas de artistas. Deu certo. No ano que vem, vamos fazer de novo.