Índice de homicídios em Caracas é cinco vezes maior que em SP – Capital da Venezuela enfrenta a sua batalha contra a violência. A taxa de homicídios chegou a 107 por grupo de 100 mil habitantes no ano passado. Pablo López Guelli Enviado do G1 Globo Online a Caracas – A Venezuela de
Hugo Chávez está gastando nos últimos meses bilhões de dólares na compra de material bélico, como caças, helicópteros, fuzis e barcos de patrulha. Mas enquanto queima o dinheiro da exportação de petróleo se preparando para uma guerra, Caracas, a capital do país e sede do governo federal, já enfrenta a sua batalha não declarada, com um dos maiores índices de violência do mundo. A taxa de homicídios chegou a 107 por grupo de 100 mil habitantes no ano passado, segundo os dados disponíveis. É mais de cinco vezes a taxa registrada no ano passado na cidade de São Paulo – que fechou em 19,05%. Andar pela bela cidade de Caracas dá medo. E não só para quem vem de outro país. "Existe um estado de medo constante. E isso está cada vez mais presente em nossa sociedade", afirma Ana Maria San Juan, diretora do Centro para a Paz e Direitos Humanos da Universidade Central da Venezuela. É esse centro que compila os dados estatísticos sobre segurança pública no país, já que o governo federal dificulta o acesso a essas informações. A administração Chávez não forneceu dados oficiais para a reportagem do G1 (leia outro lado abaixo). É a mesma dificuldade que os órgãos de imprensa locais encontram para produzir reportagens sobre o assunto. Já os números de São Paulo foram fornecidos pela Secretaria Estadual da Segurança Pública.
A característica da violência urbana na Venezuela se parece muito com a da brasileira. Os principais crimes são semelhantes: seqüestros relâmpagos, assaltos nos semáforos, roubo a bancos, arrastões, assassinatos, clonagem de cartão de crédito e por aí vai. A lista é grande. “A criminalidade está se estendendo. O trabalhador é roubado quando vai para casa, a emprega doméstica é assaltada no ônibus, quem é da classe média tem o cartões de crédito clonados… Há um estado de ansiedade e insegurança que faz com que as pessoas fiquem cada vez mais em casa”, diz Ana Maria.
Caminhar pelas ruas do centro de Caracas é uma experiência desconfortável para um estrangeiro. A região é um mar de vendedores ambulantes, desempregados e transeuntes. Uma multidão que se mistura num ritmo frenético ao som das buzinadas-que parece ser o esporte nacional preferido dos venezuelanos depois do beisebol. Os taxistas não permitem abrir as janelas no centro da cidade por medo de assaltos. Saiba mais:
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Quase não se vêem turistas caminhando – eles preferem os protegidos shoppings-center. Assim como nas principais capitais brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, a sensação é de medo constante, mesmo para quem conhece os meandros da cidade. Um bom exemplo é o da jornalista Laura Davila Truelo, que trabalha na editoria de cidades do jornal "El Universal". Ela está casada há dois anos, mas não anda com a aliança no dedo da mão todo o dia. “É por segurança mesmo. Não dá para andar com anéis em Caracas”, diz, resignada. Laura desenvolveu uma estratégia pessoal. Ela usa o anel no trabalho e o tira quando vai almoçar. Quando acaba de comer e volta ao jornal, coloca a aliança de volta, mas a tira assim que vai para rua fazer alguma reportagem. Já está condicionada.
Mas por que os bilhões de dólares arrecadados com a venda de petróleo, parte deles gastos em programas sociais, não estão surtindo efeito no combate à criminalidade?
“Porque a pobreza não é a única causa da violência", diz Ana Maria San Juan. "Não é porque melhora a condição de vida das pessoas que os níveis de criminalidade caem. A Venezuela é um bom exemplo disso. No caso de Caracas, é preciso que sejam criadas políticas de segurança pública coordenadas e de longo prazo. E isso não está sendo feito. O dinheiro que vem do petróleo e é destinado aos programas sociais não elimina a criminalidade por si só”, afirma Ana Maria. O histórico da taxa de homicídios registrados na capital Venezuela ilustra bem a teoria da socióloga. Desde que o presidente Hugo Chávez chegou ao poder, em 1998, os números não pararam de crescer, apesar do aumento de ajuda à população mais pobre. Em 1998, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes em Caracas era de 63. Segundo as estatísticas do Centro para a Paz e Direitos Humanos da Universidade Central da Venezuela, no ano seguinte esse número chegou a 94, passou a 113 em 2000 e atingiu o pico histórico de 119 em 2003. Com pequenas oscilações para cima e para baixo, a taxa se manteve em níveis extremamente altos, até chegar aos atuais 107 assassinatos por 100 mil habitantes. Para comparação: a cidade de São Paulo viveu neste período uma curva diferente. Em 1999, ano com o maior número de homicídios per capita, a taxa por 100 mil habitantes passou de 52. Desde então vem caindo. Foi de 49, em 2001, para 40, em 2003, para 24, em 2005, até chegar a 19,05 no ano passado.
A reportagem do G1 tentou de diversas formas de obter números oficiais sobre violência na Venezuela. Mas não obteve resposta da administração Chávez. O primeiro contato foi feito por telefone, ainda no Brasil, há duas semanas. Não houve resposta. Já em Caracas, o enviado do G1 à Venezuela procurou no final da semana passada a assessoria de imprensa do Ministério do Poder Popular do Interior e Justiça. Solicitou novamente dados sobre segurança pública e violência na capital e no país. Os assessores da pasta de Justiça disseram que essas informações deveriam ser solicitadas ao Ministério das Comunicações e Informação. Neste ministério os assessores disseram ao repórter que ele deveria voltar à pasta da Justiça para obter os dados. Quando o G1 voltou a esse ministério, o chefe da assessoria de imprensa disse que essas informações só poderiam ser fornecidas pelo próprio ministro. Mas não providenciou uma entrevista.